Quando uma criança não tem irmãos, vizinhos da mesma idade, não há uma praçinha, um parquinho, um playground, ou seja, é uma completa prisioneira dentro de um apartamento, é uma situação de partir o coração.
Assim é a vida da minha filha, uma solitária vidinha correndo do quarto para a sala, da sala para a área e de novo para a sala. A sua janela para o mundo é a televisão. Por ela entra a maior parte das coisas que enchem de significado a vidinha de Laura. Todos os dias agradeço pelo Discorey Kids! Pelo menos são desenhos mais selecionados, sem violência, com boas mensagens e uma sofisticação visual de humilhar nossos antigos desenhos do Manda Chuva ou do Tom e Jerry. Mas, mesmo assim, é só uma televisão. Eu fico lembrando da minha meninice, subindo na jabuticabeira da casa da minha tia, saboreando a fruta colhida direto do pé, rodeada de patos e galinhas. Me vem saudades das visitas na casa da outra tia que criava coelhos e eu podia acariciar os filhotinhos e sentir sua vida pulsando em minhas mãos. Bom, é verdade que ela vendia os coelhos para serem abatidos num restaurante depois que estavam na idade certa, mas na época eu nem desconfiava disso, para mim aquele quintal era apenas o paraíso dos bichinhos fofinhos, que andavam engraçado e comiam as folhinhas que eu lhes entregava. Quintal! Olha só que palavra linda! Na minha casa também havia um, com terra, pedrinhas, gramíneas, formigueiros, minhocas e outras preciosidades que eram muito úteis para se fazer uma boa sopa de bruxa.
E a minha pequena? Onde estão as minhocas para ela brincar ou a terra debaixo das unhas? Meu sonho de consumo hoje é um quintal. Não me importa mais ter uma boa casa, o importante é ter um quintal para morar. Um lugar para Laura crescer junto com um cachorro, os dois rolando na terra, se beijando e lambendo, como eu beijava e lambia os meus cachorrinhos.
Hoje, Laurinha tem que ir à casa das avós para ver cachorros. Na vovó Conceição, há o caridoso Pierre, um pudle standard com uma estranha paciência em relação aos ataques violentos de carinho da minha filha. Laura puxa-lhe as orelhas, senta em sua cabeça, monta sobre ele e fustiga-o como um pônei maldito, coitado! Na vovó Tereza, a coisa é mais séria, dois cães neurastênicos e vira-latas não são de muita confiança e o contato com Laura é mais restrito. Mesmo assim, ela vai ao delírio só de vê-los.
Mas não existem apenas desvantagens na vida de Laurinha. Criança de apartamento, criada pela Discovery Kids é assim: sem lombriga e cheia de vocabulários sabidinhos. Um dia, saio correndo para trabalhar e ela filosofa com a babá: "Se a mamãe perder o ônibus, vai ficar muito desapontada!". No final de semana, me veio com essa: "Tô fora de cortar a unha, viu mamãe?". Até ataca de poesia, subindo em minha cama numa manhã: "Mamãe: a lua já foi embora e o sol já surgiu!" Tudo uma graça sem fim. Mas mesmo assim, ainda preferia minha menina num quintal, com as unhas sujas de terra e um filhote de vira lata crescendo ao seu lado, como um companheiro inseparável de travessuras.