terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Brincando

A menina corre pelo imenso palácio de concreto. Imponente, amplo, gigantesco até. Ela é a princesa do palácio e pode correr o quanto quiser. Seus escravos que a acompanhem, se não quiserem perdê-la de vista.

Só por diversão, subiu e desceu bailando a majestosa rampa de três voltas, atapetada de verde. E tornou a subir e descer, pelo puro prazer de mover o corpinho, de criar uma brisa no rosto com sua correria desvairada. Os adultos que a viam, sentiam a saudade de quando seus próprios corpos podiam se dar ao luxo de gastar energia sem nenhum objtivo.

Assim continuava a brincadeira sem fim, até que, ao badalar das 22:15h, é hora de parar a correria no castelo dos Confins e se dirigir à sala de embarque. O cenário volta a ser apenas o aeroporto e seus serviçais retornam ao posto de pais. Mas, ela não está triste, vê a lateral do avião no qual entrará em segundos. Vai começar outra aventura. O avião poderá se transformar em uma nave espacial para Marte e a aeromoça é uma espiã que tentará atrapalhar seus planinhos.

É por isso que a vida é mais divertida aos quatro anos.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O perigo por trás da tela

Crianças cada vez mais novas acessam o conteúdo da internet

Minha filha descobriu o Youtube. Só preciso deixar a tela do buscador aberta e ela mesma digita a letra Y. Imediatamente aparecem as opções e ela clica na primeira, sabendo que a opção com cor diferente é a mais acessada (olha a esperteza de baixinha). Também por ser muito acessado, o site abre ofertando à minha menina opções de vídeos que a interessariam. O Grande Irmão já sabe o que se passa na cabeça da minha filha, lembra o que ela viu da última vez em que o visitou e dá novas opções, outros filminhos similares. É um pouquinho assustador, a noção de que minha filha, com apenas cinco anos, não sabe ler, mas reconhece nomes de sites pelo seu desenho e já consta na pesquisa virtual como uma consumidora de hábitos.

Sua preferência são trechos musicais de desenhos animados, jogos de monstros e video clips da Lady Gaga. Nem sabe português direito mas canta foneticamente “Bad Romance” e “Poker Face”. Ainda não foi alfabetizada, mas já está treinada em pular os comerciais que infestam a internet. Ela clica na hora certa, não perde nem um segundo.

- Filha, como você aprendeu a fazer isso?

- A titia me ensinou. A palavra "pular" começa com a letra P, mãe? Aí, aparece esse quadrado aqui e, quando vejo a letra P, eu clico em cima.

Pobres anunciantes...

vai ela clicando em diversos filminhos e eu na cozinha lavando a louça, ouvindo. De repente, percebi que a música ficou meio estranha, não parecia mais uma coisa infantil. Era um rock pesado e reconheci alguns palavrões cantados em inglês. Larguei tudo e corri para a sala. Na tela, os bichinhos do desenho estavam transfigurados com deformações, vestidos de couro preto e com chicotes em frente ao olhar estupefato de minha menininha. Em desespero, eu clicava em tudo quanto é botão e demorei a conseguir tirar a imagem do ar.

- Mãe, por que eles estão assim? Eles ficaram maus?

- Filha, nem tudo o que a gente encontra na internet é bom para você assistir, entendeu? Algumas pessoas fazem coisas erradas com os desenhos de crianças, e isso não é bom.

- Por que eles fazem isso?

- Porque...

Percebi que eu não tinha a resposta. Não sabia o que levava as pessoas a produzirem um conteúdo inadequado disfarçado de desenho animado. Eles sabem que o público que procurará esse material é inocente, sem capacidade ainda de discernir o que pode ser visto daquilo que deve ser evitado. Qual deve ser o interesse de se postar uma mensagem apenas para provocar o mal estar em uma criança? O tipo de mente destorcida que faz isso seria capaz de outras maldades no mundo real? A crueldade assusta mais quando apresenta-se assim, tão sem propósitos.

A admiração que senti ao ver minha filha mexendo no computador como se fosse gente grande perdeu um pouco o brilho, com o temor de ver seu mundinho ultrajado com mensagens inadequadas. Mas, isso se resolve facilmente instalando um sistema na máquina. O importante mesmo é lembrar que a censura nem sempre é uma coisa ruim. Pais devem censurar sim, o conteúdo da internet para seus filhos dependendo da idade. E, na adolescência, a censura deve dar lugar ao acompanhamento definido em um acordo entre ambas as partes, mas não é possível se descuidar totalmente. Afinal, não sabemos quem está do outro lado da tela do computador, produzindo e enviando mensagens para alguém que ele só vê como sendo um mero público consumidor, ou seja, o seu filho.









quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Triste dia de sol


Uma homenagem à menina de cabelos longos.

 Há alguns dias, uma tragédia abalou a cidade de Belo Horizonte e seus tristes contornos ecoaram por todo o Brasil. Num belo dia de sol, uma menina de oito anos de idade perdeu a vida no fundo de uma piscina em um dos mais tradicionais clubes da cidade. Ao que parece, a garota desceu pelo toboágua e, ao afundar com a queda, teve seus longos cabelos sugados por um tubo que faz a sucção da água para que o escorregador da piscina funcione.

Nessa história, algumas coisas estarão sempre fora do alcance de nossa imaginação. É inimaginável a dor dos pais, o pavor do tio que a acompanhava, o desespero de todos que tentaram trazer aquele corpinho à tona, chegando a tentar cortar-lhe os cabelos com vidros de garrafas quebradas às pressas.

As perguntas são muitas, e sabemos que as respostas demorarão, ou jamais virão. O posicionamento do tubo estava correto? Qual a idade certa para permitir que uma criança escorregue sozinha em um toboágua? Quanto tempo levou o salva-vidas para acorrer ao local? O que poderia ter evitado o desfecho trágico?

Que essa triste história não seja em vão e sirva para nos avivar a memória de que, além de passar filtro solar, há cuidados ainda mais importantes para você tomar em relação aos seus filhos nestas férias.
  1. Não tire os olhos de seus filhos. Mesmo que no caso da menina não tenha adiantado, pois o tio estava de olho nela, esta é ainda a mais importante prevenção para acidentes na piscina ou praia. Sigam seus filhos por todo lado, mesmo que apenas com o olhar. Sei que isso causa grande cansaço e você perderá sua diversão, mas basta um segundo para que aconteça um acidente. Faça turnos entre você, o marido ou uma tia, cada hora um fica de olho.
  2. Até que idade deve-se seguir os passinhos do seu pimpolho? Depende da maturidade de cada um e dos perigos que o local oferecer.
  3. Antes de montar sua barraca na praia ou sua espreguiçadeira na beira da piscina, avalie todos os pontos críticos do local. Profundidade da piscina, localização e tamanho dos tubos de sucção (a piscina deve ter vários tubos pequenos ao invés de um grande), escorregadores, quantidade de crianças na água e etc.
  4. Verifique se há salva vidas no local e posicione-se nas proximidades deste profissional.
  5. Nunca subestime a capacidade dos seus pequenos de inventarem brincadeiras perigosas e interfira se necessário.
  6. Matricule seu filho em uma escola de natação. Algumas até oferecem treinamento para uma criança se virar na água se cair de roupa e tudo.
Enfim, todo o cuidado é pouco e, por mais que dê trabalho e atrapalhe um pouco suas férias, lembrem-se de nossa pequena sereia de cabelos longos, que disse adeus tão cedo, perdida em meio às suas risadas na descida do toboágua e as lágrimas daqueles que a amavam.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Um conto para minha filha - preparando-a para ser a melhor amiga

Você é a minha melhor amiga.” Pronto, estava selado o relacionamento mais importante da vida de uma menina de doze anos. Você podia ter várias amigas, mas era obrigatório eleger a “melhor amiga”. E deveria fazê-lo em diversos grupos: havia a colega número um do colégio, a prima mais querida e a vizinha preferida. O ponto alto era a escolha da principal, uma espécie de miss universo entre as melhores amigas de cada categoria. O resultado causava decepção nas demais e uma alegria esfuziante na escolhida. Era uma honra ser a melhor amiga, mas era também uma enorme cobrança para que você jamais cometesse um erro; uma desatenção lhe custaria o cargo.

Minha primeira melhor amiga foi Cláudia Miranda Starling, cujo nome completo sei até hoje, apesar de termos ambas apenas seis anos de idade quando nos conhecemos. Era um amor não correspondido, a menina não fazia questão da minha amizade, mas eu a adorava, pois ela tinha dois atributos que me encantavam – cabelos lisos e longos e comportamento doce como um anjo. Em resumo, ela era o meu oposto, com meu cabelinho curto e cacheado e a minha personalidade de tiranossauro rex. A última vez que nos vimos, foi há 34 anos, mas acho que reconheceria seu rostinho de boneca mesmo com algumas rugas.

A vaga não demorou a ser preenchida por outra colega de escola, Paula Regina Pizzanni Queiroz. Lembro-me de seu lindo sorriso, consigo ver em minha mente o contorno da sua letra no caderno e o eterno corte de cabelo, que nunca mudou durante os sete anos em que convivemos. Quantas conversas ao telefone, quantos ataques de riso tivemos juntas. Nunca mais ri como aos doze anos, era um riso fácil e farto. Brigávamos muito, vivíamos tirando a coroa de melhor amiga uma da outra e, depois de muito choro, fazíamos as pazes como um casal de namorados. Hoje, olhando para trás, acho que nem com o namorado uma garota reparte conversas tão profundas, secretas e sonhadoras como o faz com a melhor amiga.

A grande surpresa da minha vida foi encontrar uma melhor amiga aos 26 anos de idade. Adeilda Viana antipatizou comigo à primeira vista, pois entrei na empresa substituindo a amiga dela. Eu também fugia dela, com receio de errar seu nome que eu nunca conseguia memorizar. Então, um dia, quando a turma estava de saída para o almoço, nosso chefe nos alcançou no elevador e, grosseiramente, esbravejou com Adeilda por um erro que ela cometera. Nem por um segundo aquela mulher perdeu a educação ou abaixou-se ao nível dele. Aguardou o final da explosão, deu uma explicação cortês e informou: “Resolvo assim que voltar. Estou indo para o almoço”, concluiu ela, virando-se. Na mesma hora pensei: “está aí uma pessoa que tem talento para me aguentar”. Foi assim que nossa amizade durou dez anos, com muitas viagens à praia, pileques em botequins, seções de cinema e de comilanças. Ela era sincera, paciente e tinha um coração enorme. Se faltassem qualidades, bastaria essa: ela me obrigou a estudar para um concurso e é a razão de eu ter um emprego hoje. E também me apresentou a um dos meus filmes prediletos, Sherek! Ao seu lado vivi momentos grandiosos, como quando tiramos carteira de motorista juntas, e momentos terríveis, como a falência da empresa da qual éramos sócias. Adeilda tinha mãos lindas, acho que eram um reflexo de sua generosidade. Segurei aquelas mãos por longos minutos em nossa despedida.

Hoje, não faço ideia do que aconteceu à Cláudia, nunca mais a vi. Alguns amigos são assim, estão presentes na sua vida apenas num determinado momento e desaparecem quando chega a hora de você aprender coisas novas com outras pessoas.

Paula decidiu um dia que eu não servia mais como amiga, apertou um botão e me deletou da sua vida. Sem explicações, sem adeus. Era para ser assim, pois às vezes, só uma grande dor nos faz crescer.

Adeilda partiu aos 36 anos de idade. E, por mais doloroso que seja perder para sempre uma das poucas almas que entendeu a sua, no final você acaba se conformando. Porque, às vezes, é preciso uma pessoa amiga lá em cima também, olhando por você, esperando para tomar sua mão na travessia, quando chegar a sua vez.