quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Quem manda na sua barriga?

A velha discussão sobre cesariana é novamente conduzida com desrespeito às mulheres e seu direito para decidir sobre o próprio corpo.

Cesária ou parto normal? Só essa pergunta já deixa bem claro: cesariana não é uma coisa normal, ou seja, é anormal. E assim o tema foi tratado hoje de manhã numa reportagem da rádio Itatiaia de BH, onde a repórter Camila Dias promoveu uma verdadeira caça às bruxas na maternidade Otaviano Neves, inquirindo veementemente as gestantes e mães presentes se elas tinham feito o parto normal ou cesária.
O tom de voz da repórter chega ao clímax da ironia e cinismo quando ela alega que tem mulher que pega o resultado de sangue e já diz que quer cesária. Como se uma mulher adulta e dona do próprio nariz não tivesse direito sim de escolher o que deseja fazer com seu corpo.
Vamos separar as coisas, o alto número de cirurgias no Brasil precisa ser reduzido e o parto normal deve sempre ser a primeira escolha. Entretanto, se alguém deve ser considerado culpado nesta situação, é o médico, que induz pacientes a fazerem a cesariana por comodidade. A mulher que escolhe a cesariana, por medo da dor, não é culpada de nada. Está exercendo o seu direito de decidir sobre seu corpo, sua vida.
Camila Dias segue nas reportagens tentando “flagrar” alguma desavisada. Quando uma mulher informa que fez três cesarianas e seu quarto filho também nasceria pela cirurgia, a repórter dispara “Por quê?”. A mulher informa que não teve passagem (dilatação). Mesmo assim, como que desconfiando, a repórter repete “Não foi por escolha, não?”. A coitada repete que não teve passagem.
Outra entrevistada explicou o motivo de sua cesariana: o bebê não encaixou, não houve dilatação e a bolsa estourou. Deu para entender, né? Caso de urgência, como foi o meu. Mesmo assim, a moça teve que responder a mais uma pergunta: “Vocês soube no dia ou já estava decidido?”. A mulher agora tem bola de cristal, já decide com meses de antecedência que sua bolsa vai estourar e não haverá dilatação.
Eu decidi pelo parto normal e Deus decidiu que eu passaria por uma cesariana. Se milha filha ficou “drogada” pela anestesia que eu tomei, ela disfarçou muito bem, saiu de mim berrando a plenos pulmões. Foi levada para mim horas depois e estava tranquila e saudável. Hoje, ela tem seis anos e nenhum traço de que ficou traumatizada pela forma como nasceu. Foram cortadas sete camadas de pele, músculos e sei lá mais o que, e no dia seguinte eu estava andando pelo quarto normalmente, sem qualquer dor.
Tenho uma prima que teve complicações durante seu parto normal, mas o médico insistiu em fazer a “coisa certa”, e a tal coisa levou mais que 15 horas. Quando finalmente o bebê saiu roxo, constatou-se falta de ar no cérebro do bebê, por um breve período, devido à demora e problemas do parto.
Só para as pessoas entenderem que existem boas cesarianas e partos normais péssimos também. Mas, acima de tudo, que uma mulher deve ser respeitada no seu direito de escolha sobre si mesma.