A escolinha mandou um bilhete, pedindo que as crianças
fossem de verde e amarelo para a última aula, um dia antes de começar a Copa do
Mundo no Brasil. Lembrei que tinha avistado semana passada, camisas infantis do
tema a 10 reais e fui satisfeita fazer a compra. Como sou ingênua. É claro que,
faltando apenas três dias para o início do Mundial, o preço sofreu um ligeiro
acréscimo de 100%. Indignada, comprei
assim mesmo, afinal o evento da escola já estava marcado e, na oportunidade,
eles iriam ensinar às crianças noções de pátria e civismo.
Meu Deus há quanto tempo não ouvia essas palavras. Soaram
tão empoeiradas, em particular a segunda, que me transportou para uma aula de
Educação Cívica que tinha quando criança, na qual decorávamos o Hino Nacional e
estudávamos o significado das cores da bandeira.
Para preparar o terreno, chamei minha filha e mostrei lindas
imagens do Planeta Terra no Google, apontando o Brasil, identificando o nosso
Estado e, por fim, nossa cidade. Depois expliquei que pessoas dos outros países
iriam pegar um avião e vir até o nosso país para jogarem futebol e que todos
queriam que suas pátrias ganhassem.
- Entendeu, filha, pátria é o nosso país.
- Mas nosso país não é o Brasil?
- Sim, mas é a sua pátria, mais do que um lugar onde você nasceu,
é toda a bagagem de cultura, história... – parei nesse ponto ao perceber que já
a havia perdido. Laura tentava acessar um joguinho da Barbie no computador. Por
que não? Afinal, a Barbie é tangível, ela a conhece, compreende o que é. Mas,
essa tal pátria, onde está que não estou vendo?
Se minha filha tivesse visto a pátria se transformando ao
redor dela para receber a Copa do Mundo, talvez ela a entendesse melhor. Se ela
tivesse visto bandeirolas verdes e amarelas cruzando a rua num zigue-zague
festivo, ela pararia para pensar qual o motivo daquilo tudo. Se tivesse
assistido a cena dos vizinhos na rua pintando a bandeira do Brasil na calçada,
ela talvez pudesse entender o que é esse sentimento que une pessoas diferentes
em torno de um mesmo ideal. Não era possível que ela entendesse a pátria vendo
uma página do Google.
Senti uma tristeza imensa olhando sua cabecinha atenta ao
jogo da Barbie, pensando que ela não teria as mesmas experiências que eu tive
com minha pátria. São flashes, cenas que me marcaram. Minha mãe pedindo a meu
pai que não escrevesse mais contra o governo militar no jornal da universidade.
Minha irmã mais velha saindo para a passeata do movimento das Diretas Já. Avistar Lula ao vivo pela primeira vez numa palestra na faculdade (mesmo que, anos depois, tenha sido ele minha grande decepção, naquele momento, eu acreditei. Ele me fez querer participar.). O caixão de
Tancredo Neves passando pela avenida sobre um carro de bombeiros. Eu e minha
irmã estourando uma garrafa de champanhe depois de podermos votar para
presidente pela primeira vez na nossa vida. Nós choramos aquele dia. A alegria
pipocando em nossos corações como as bolhas da bebida dentro das taças.
O que é a pátria hoje? Alguém se importa? A apatia matou a
pátria, e até as passeatas de hoje, tão manipuladas, tão amplas, com tantos
objetivos, não apresentam um foco claro. Qual é o objetivo? Como Milan Kundera
falou certa vez, talvez tudo o que as pessoas consigam seja provocar um
espetáculo. No nosso caso, um transtorno no trânsito. Mas, depois de tantas
passeatas, qual é o próximo passo? Ninguém sabe.
A pátria agora é só uma palavra a mais para entrar no
vocabulário da minha filha. E o sentimento cívico, um espetáculo que assistimos
no noticiário e nos posts do Facebook. A gente não precisa fazer nada, só dar
um like.