sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Um balde de gelo

Como vivo no mundo da lua, só ontem tomei conhecimento sobre um viral que agitou o mundo inteiro, o desafio do balde de gelo. A brilhante iniciativa desafia pessoas, muitas delas famosas, a jogarem um balde de gelo na cabeça e/ou doar dinheiro para o combate à ELA - esclerose lateral amiotrófica. Além dos milhões de anônimos, é possível assistir vídeos de Mark Zuckerberg, criador do Facebook, Bill Gates, da Microsoft, Lady Gaga, Ana Maria Braga, Ivete Sangalo ou Neymar, tomando o banho gelado e desafiando outros famosos.

Depois de rir a valer com as cenas, fiquei pensando que sorte tinham aquelas pessoas, que só precisavam suportar alguns segundos do choque gelado em seus corpos, comparado ao que precisam suportar as vítimas dessa doença, a mais cruel que conheço.

Há seis anos, o apartamento à frente do meu foi ocupado por uma mulher na casa dos seus 50 anos, mas extremamente bela. Pele imaculadamente branca, cabelos lisos e negros e olhos espetacularmente azuis. Não conversávamos, não sou de aproximar-me de vizinhos, após algumas experiências desastradas. Mas, meses depois a reencontrei no corredor andando com o auxílio de um andador. Imaginei tratar-se de um problema temporário, até revê-la tempos depois empurrada na cadeira de rodas por uma cuidadora. Senti remorso por nunca ter lhe dirigido a palavra, aquela mulher estava definhando a olhos vistos. Estava mais magra e seus pés pareciam retorcidos.
Um dia, ao chegar do trabalho, vi sua porta aberta. Adivinhando a presença de alguém, a mulher se pôs a gritar por ajuda. Ela estava na cama, sozinha. Explicou-me que a cuidadora não aparecera e ela precisava de água. Falava de um jeito altivo, não parecia ter o espírito diminuído pela doença. Naquela noite, eu dei-lhe sopa na boca pela primeira vez. Estabeleceu-se uma rotina, eu lhe dava o jantar, ajudava-a a usar a comadre e mantinha a porta de meu apartamento aberto, caso ela gritasse no meio da noite pedindo algo. Passamos de completas estranhas a grandes amigas no espaço de uma semana.

Ela explicou com calma que não havia cura para a ELA. A doença subiria por seu corpo, dos pés à cabeça, paralisando e retorcendo cada músculo até atingir as vias aéreas, e então ela não seria mais capaz de engolir qualquer alimento ou mesmo respirar sozinha. Disse que não se revoltava, a única tristeza era não ter mais movimento nos dedos para terminar seu livro de memórias.

A família a visitava pouco, não era por maldade. Desejavam que ela se internasse, e a ausência deles era um protesto contra a recusa dela. O problema é que o corpo daquela mulher regredia para um estágio de quase bebê enquanto sua consciência, com as privações e sofrimentos, se tornava cada vez mais madura e elevada.

No final, ela venceu e a família contratou cuidadores para o dia e a noite, mas foi levada para outro edifício, com melhor acesso à cadeira de rodas. Antes da partida, trocamos livros emprestados, ela era também grande amante da leitura.

A última vez que nos falamos por telefone, contei a ela que esperava uma filha e a cuidadora traduziu seus grunhidos de parabéns. A doença chegava ao esôfago e ela não comia mais pela boca. O próximo passo era a respiração, e isso encerraria para sempre suas palavras.


Ela ficou com meu livro, “O Código Da Vinte”, e eu fiquei com “Memórias de uma Geixa”. Saí ganhando. Gosto de olhar a dedicatória na primeira págin,a que uma desconhecida escreveu para minha amiga, e fingir que fui eu quem escreveu, que fomos amigas quando ela ainda andava. E a gente foi ao shopping assistir um cinema. Depois, uma pizza e dois chopps gelados.  E voltamos para casa bêbadas, mas caminhando.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Ser mãe é repetir

Quantas vezes você precisa repetir uma ordem para seu filho? Se respondeu três, bata os joelhos no chão e agradeça. Depois dos “terrible two”, você pensa que está finalmente segura. O pimpolho está entrando no ensino fundamental e já tem claras noções sobre deveres e obrigações. Então, dizer o comando uma única vez, será o suficiente, certo? Errado. Por volta dos seis anos, a criança resolve que já te deu folga o suficiente, e vai testá-la outra vez. 

Então, vamos à enquete. Qual é a frase mais repetida em sua casa?
Vai tomar banho.
Guarda a pasta.
Escova os dentes.
Não jogue lixo no chão.
Vai fazer o para casa.
Venha almoçar.

Eu calculo que, para cada comando, preciso repetir um mínimo de seis vezes, mas já cheguei a 15 com o “Vai tomar banho”. 
Nessas horas, eu peço que Deus me dê paciência. Mas, ele dá uma risada e responde: “Pois se eu te dei essa criança exatamente para você desenvolver o dom da paciência!”. Ai, meu Deus, eu me submeto.