Como vivo no mundo da lua, só ontem tomei conhecimento sobre
um viral que agitou o mundo inteiro, o desafio do balde de gelo. A brilhante
iniciativa desafia pessoas, muitas delas famosas, a jogarem um balde de gelo na
cabeça e/ou doar dinheiro para o combate à ELA - esclerose lateral amiotrófica.
Além dos milhões de anônimos, é possível assistir vídeos de Mark Zuckerberg,
criador do Facebook, Bill Gates, da Microsoft, Lady Gaga, Ana Maria Braga,
Ivete Sangalo ou Neymar, tomando o banho gelado e desafiando outros famosos.
Depois de rir a valer com as cenas, fiquei pensando que
sorte tinham aquelas pessoas, que só precisavam suportar alguns segundos do
choque gelado em seus corpos, comparado ao que precisam suportar as vítimas
dessa doença, a mais cruel que conheço.
Há seis anos, o apartamento à frente do meu foi ocupado por
uma mulher na casa dos seus 50 anos, mas extremamente bela. Pele imaculadamente
branca, cabelos lisos e negros e olhos espetacularmente azuis. Não
conversávamos, não sou de aproximar-me de vizinhos, após algumas experiências
desastradas. Mas, meses depois a reencontrei no corredor andando com o auxílio
de um andador. Imaginei tratar-se de um problema temporário, até revê-la tempos
depois empurrada na cadeira de rodas por uma cuidadora. Senti remorso por nunca
ter lhe dirigido a palavra, aquela mulher estava definhando a olhos vistos.
Estava mais magra e seus pés pareciam retorcidos.
Um dia, ao chegar do trabalho, vi sua porta aberta.
Adivinhando a presença de alguém, a mulher se pôs a gritar por ajuda. Ela
estava na cama, sozinha. Explicou-me que a cuidadora não aparecera e ela
precisava de água. Falava de um jeito altivo, não parecia ter o espírito
diminuído pela doença. Naquela noite, eu dei-lhe sopa na boca pela primeira
vez. Estabeleceu-se uma rotina, eu lhe dava o jantar, ajudava-a a usar a
comadre e mantinha a porta de meu apartamento aberto, caso ela gritasse no meio
da noite pedindo algo. Passamos de completas estranhas a grandes amigas no
espaço de uma semana.
Ela explicou com calma que não havia cura para a ELA. A
doença subiria por seu corpo, dos pés à cabeça, paralisando e retorcendo cada
músculo até atingir as vias aéreas, e então ela não seria mais capaz de engolir
qualquer alimento ou mesmo respirar sozinha. Disse que não se revoltava, a
única tristeza era não ter mais movimento nos dedos para terminar seu livro de
memórias.
A família a visitava pouco, não era por maldade. Desejavam
que ela se internasse, e a ausência deles era um protesto contra a recusa dela.
O problema é que o corpo daquela mulher regredia para um estágio de quase bebê
enquanto sua consciência, com as privações e sofrimentos, se tornava cada vez
mais madura e elevada.
No final, ela venceu e a família contratou cuidadores para o
dia e a noite, mas foi levada para outro edifício, com melhor acesso à cadeira
de rodas. Antes da partida, trocamos livros emprestados, ela era também grande
amante da leitura.
A última vez que nos falamos por telefone, contei a ela que
esperava uma filha e a cuidadora traduziu seus grunhidos de parabéns. A doença
chegava ao esôfago e ela não comia mais pela boca. O próximo passo era a
respiração, e isso encerraria para sempre suas palavras.
Ela ficou com meu livro, “O Código Da Vinte”, e eu fiquei
com “Memórias de uma Geixa”. Saí ganhando. Gosto de olhar a dedicatória na
primeira págin,a que uma desconhecida escreveu para minha amiga, e fingir que fui
eu quem escreveu, que fomos amigas quando ela ainda andava. E a gente foi ao
shopping assistir um cinema. Depois, uma pizza e dois chopps gelados. E voltamos para casa bêbadas, mas caminhando.