quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Socorro! Meu filho está de férias!


O que fazer com as crianças em casa ou em passeios com pouca grana.


Você se lembra da euforia de quando era estudante e, finalmente, entrava de férias? O paraíso nos esperava – assistir a sessão da tarde deitado no sofá, viajar para a casa dos avós no interior ou ficar na rua até tarde brincando com os vizinhos era tudo de bom.

Hoje, sou a mãe e as “férias de criança” não fazem mais parte do meu paraíso. Aliás, sem um planejamento, a coisa pode estar mais para férias infernais. Afinal, não há mais segurança para as crianças brincarem na rua.

Xeretando na internet, descobri ótimas dicas para se curtir as férias sem viagem com as crianças... Desde que você more no Rio de Janeiro, em São Paulo ou Curitiba. Mas, na grande maioria das cidades, até em capitais como Belo Horizonte, as opções de lazer para os pequenos são restritas, com excesso de público e de alto custo.

As praças públicas sofrem com depredação pela própria população e muitos espaços foram ocupados por consumidores de drogas tornando-se locais perigosos. Quem mora no litoral é privilegiado, pois a praia é grátis. Aos demais mortais, restam os clubes, mas só para quem paga a cota.

Os shoppings se tornaram a rota de fuga para pais desesperados, mas é melhor estar preparado para o preço que você vai pagar. Veja a média de preços nos shoppings da minha cidade. Três horas de estacionamento, R$21,00. Cinema 3D para um adulto e duas crianças, R$52,00. Dois baldes de pipoca e três refrigerantes, R$39,00. Quarenta minutos no play para duas crianças, R$48,00. Três casquinhas de sorvete para arrematar o passeio, R$7,50. Total da brincadeira: R$168,50 por três horas de diversão. Isso, sem considerar o tempo gasto no trânsito, para achar a vaga no estacionamento e nas filas do cinemas e praça de alimentação. Ufa!

Não há escapatória, você terá que fazer, ao menos, um passeio desses. Mas pode preencher com criatividade e alguma dedicação os demais dias.

·        Fique de olho no jornal para não perder opções de lazer oferecidas gratuitamente pela prefeitura, como ações em parques com diversão para a garotada.
·        Monte você mesmo um roteiro de diversão em um parque que ofereça brinquedos como escorregador ou aquelas estruturas de ferro para escalar. Proponha desafios entre as crianças como quem sobe mais alto, competições de corrida ou de bicicleta. Compre medalhas ou troféus com antecedência para a hora da premiação. Em lojas de materiais esportivos, há itens como esses bem baratinhos.
·        Se você, como eu, sofre da síndrome do filho único, trate de fazer amizade com as mães dos coleguinhas que também são filhos únicos. Descubra quem não viajou e marquem um rodízio – cada dia as crianças se reúnem na casa de um. Variam de ambiente, de brinquedos e as mães se revezam no cuidado com as crianças.
·        Junte amiguinhos e primos para um concurso de talentos. As crianças podem dublar músicas, dançar, usar fantasias e maquiagem.
·        Junte sucata como potes e tampinhas, compre material numa papelaria como cola, guache, pincéis ou adesivos e promova uma seção de artes na área do apartamento.
·        Relembre de algumas brincadeiras da sua infância para recriar com seu filho, como batatinha frita um dois três, passa anel, chicotinho queimado. Naquele tempo, não havia shopping nem computador, mas a gente se divertia muito também.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Decoração de Natal: uma tradição de pais para filhos

Mais que enfeites, a decoração natalina tem um significado, que pode ajudar às crianças a aprender o verdadeiro espírito da comemoração.
  
Quem fazia decoração do meu Natal de criança era a minha avó. A velha senhora fazia questão de montar seu presépio todos os anos. Minha mãe retirava uma caixa de papelão empoeirada do armário e os personagens principais daquela festa começavam a ser desembrulhados lentamente do papel jornal. Surgia a Maria de gesso, seu rosto esculpido com minúcias, a pintura laqueada dava brilho ao manto rosa. Um a um, com o máximo de cuidado que suas mãos trêmulas permitiam, vovó ia ajeitando cada figura dentro da estrebaria de madeira. Por último, era colocado o aniversariante, um menino Jesus lindo apesar de faltar-lhe uma das mãozinhas, quebrada num trágico descuido. Quando a velha dona Vicentina começava a montagem daquele símbolo, o espírito do Natal despertava no coração de cada um de nós, que acompanhávamos embevecidos o ritual. Mas, só olhando de longe, porque criança não tinha autorização para tocar nas imagens do presépio; era pecado brincar com eles como se fossem bonecos. Nem era permitido tocar nas bolas brilhantes da árvore de Natal, que eram feitas de um vidro finíssimo e quebravam-se só olhar para elas.

Minha avó partiu há mais de 20 anos, mas os personagens de seu presépio estão vivos até hoje e todo dezembro a tarefa de montá-lo na casa de minha mãe agora é nossa, das netas. A tradição não pode ser quebrada, mas na correria da vida, está cada vez mais difícil de ser mantida. Mesmo assim, veja como vale a pena tentar!

Promover o momento de montagem dos enfeites com a família reunida é uma maneira maravilhosa de se começar o Natal. Fica tudo ainda mais lindo quando as crianças começam a entender o significado de cada enfeite, que não são uma mera decoração, mas símbolos do nascimento desse homem tão especial, que foi Jesus. Veja o que significam.

Origem da Árvore de Natal

Enfeitar árvores é um ritual muito antigo, presente em praticamente todas as culturas e religiões pagãs, para celebrar a fertilidade da natureza. Passou a ser adotado pelos cristãos na Europa, no começo do século XVI e as árvores passaram a ser montadas dentro das casas, cada vez mais decoradas. As velas simbolizam a luz de Cristo, as estrelas são uma alusão à estrela de Belém e as rosas eram uma homenagem à Virgem Maria. Percebeu que as bolas não eram originalmente um enfeite de Natal? É que ao longo dos anos os adereços foram mudando, já que as velas apresentavam perigo de incêndio e as rosas murchavam.

No Brasil, o dia certo para montar a Árvore de Natal é no domingo mais próximo do dia 30 de novembro e ela deve ser desfeita no dia 6 de janeiro, junto com as demais decorações.

Que tal deixar suas crianças montarem a árvore do jeito que quiserem? É uma experiência inesquecível. É verdade que, no resultado final, a árvore da minha casa parece ter sido atropelada por uma ambulância, mas minha filha de cinco anos fica toda orgulhosa ao contar a todos que a montou sozinha.

Origem do Presépio de Natal

A palavra presépio significa “um lugar onde se recolhe o gado, curral, estábulo”. O primeiro presépio foi montado por São Francisco de Assis no ano de 1223, com os personagens feitos em argila, em tamanho natural e no meio de uma floresta. Sua ideia era explicar às pessoas mais simples como foi o nascimento de Jesus Cristo. No século XVIII, o presépio se popularizou pela Europa e, logo em seguida, por outras regiões do mundo.

Um presépio completo deve ter o Menino Jesus, Maria, José, uma manjedoura com palhas, burro e boi ou ovelhas (animais do curral que representam a simplicidade do local onde Jesus nasceu), anjos (responsáveis por anunciar a chegada de Jesus), a estrela de Belém (que orientou os reis Magos), pastores (representam a simplicidade das pessoas) e os reis magos (Belchior, Baltazar e Gaspar).

Assim que minha filha completou dois anos, percebi como facilitaria contar a história do nascimento de Jesus recriando a cena. Entretanto, na minha casa, não havia presépio, então, improvisei com bonecos. O Sherek era José, a Fiona representou Maria, um dos trigêmios ogrinhos representou o Menino Jesus e o Burro, bem, fez o papel de burro mesmo. Ela delirou com a história! No ano seguinte, comprei um presépio de verdade, montei-o na sala e minha filha, depois de admirá-lo longamente, foi ao quarto e voltou com o boneco do Sherek, posicionando entre as outras figuras do presépio.
  
A origem dos Presentes de Natal

A prática de se dar presentes relembra que os três reis magos ofereceram presentes para o menino Jesus após o seu nascimento. Porém, o Papai Noel é uma menção a um bispo romano do século V, “São Nicolau”, que entregava donativos - às escondidas - às filhas de um homem muito pobre. Aos poucos, o dia de São Nicolau foi se fundindo com o período natalino.

E como o São Nicolau presenteava anonimamente, foi assim também que surgiu o amigo secreto, pelo hábido das pessoas colocarem presentes debaixo da árvore de natal sem que ninguém saiba de quem são e quem os colocou ali.


Hoje, o apelo comercial do Natal parece suplantar seu verdadeiro significado e as tradições. Por isso, transmita o significado do Natal para seus filhos. Mas o presente também tem seu lugar. Tem coisa melhor que o brilho dos olhinhos de uma criança, quando ela descobre que o maior pacote debaixo da árvore, é para ela? Isso também faz uma Noite Feliz.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Criança fala cada uma...


Anotar as graçinhas do seu filho pode ser uma lembrança tão poderosa quanto uma foto.

Quando engravidei, ganhei dois exemplares do chamado “livro do bebê”, uma espécie de álbum de recordação onde a mãe anota absolutamente tudo sobre seu rebento. Peso ao nascer, nota no Apgar (teste que dá uma nota às condições do recém-nascido, um e cinco minutos depois do parto), altura (ou melhor, comprimento, porque o bichinho nem fica de pé ainda) e qualquer outra mensuração, índice ou porcentagem que seja possível. Depois, anotam-se todos os números de novo, à medida que a criança vai crescendo. E as datas? É preciso registrar o dia que caiu o umbigo, que levou o primeiro tombo, que riu pela primeira vez, que perdeu o primeiro dente... É o tipo de diversão que qualquer mãe com transtorno obsessivo compulsivo irá adorar.

Para piorar minha situação, eu tinha que preencher os dois álbuns, para não desagradar nem minha mãe e nem minha irmã que me presentearam. Sentia uma culpa terrível quando perdia a data de algum acontecimento importante, por exemplo, o primeiro corte de cabelo, então, tratava de inventar algumas informações, só para manter os livros completos. Hoje, não sei o que é falso ou verdadeiro nos números anotados, mas as palavras sim, essas são todas reais. Nas páginas com mais espaço, comecei a anotar as gracinhas que minha filha dizia do alto dos seus dois aninhos de idade. Sabia que me arrependeria se não o fizesse, pois às vezes, me lembro que meus sobrinhos diziam coisas que nos faziam rir por dias, mas ninguém se recorda mais das frases encantadoras, desconcertantes e curiosamente sábias que saíam daquelas boquinhas.

Hoje, adolescentes, meus sobrinhos adoram quando conto algumas histórias onde eles foram os protagonistas das melhores tiradas. Riem surpresos, tentando se reconhecer nos casos que a tia vai contando, como no dia em que minha irmã ensinava meu sobrinho a rezar o pai nosso, falando apenas parte das frases e deixando-o completar a última palavra.

Ela: Assim como nós perdoamos a quem nos tenha...
Ele: Ofendido!
Ela: E não nos deixei cair em...
Ele: Nenhum buraco!

Às vezes, ao invés de risos, as crianças nos arrancam lágrimas. Ao tentar superar a saudade da tia avó que havia morrido, minha sobrinha contou-nos seu plano:

- A gente sobe numa escada muito alta, pega a faca de pão, serra o azul do céu e tira a Tia Cida de lá de dentro. Assim, ela pode voltar a viver com a gente aqui. Só falta saber se ela está no céu dessa janela aqui ou no céu da janela da outra sala.

A minha filhinha faz o gênero mais prático. O negócio dela é mandar em todas as brincadeiras e, geralmente, ser do contra. Se você quer brincar de um jeito, ela, invariavelmente, quer de outro. Um dia, brincando com ela de Polly, aquela bonequinha minúscula de troca roupinhas de plástico, resolvi colocar todos os meus conhecimentos de Indiana Jones misturados com um clima de Harry Potter para criar um cenário mágico para nossa brincadeira. Enquanto movia as nossas duas bonequinhas pelo chão, fui narrando:

- E aí, as bonequinhas entraram num misterioso castelo perdido...

Arrancando as Pollys das minhas mãos, minha filha repetiu meu movimento, fazendo-as andar pelo chão e dizendo:

- Nada disso, mãe. E aí, as bonequinhas entraram no Carrefour!

Com certeza, lembranças como essas devem ser anotadas por serem tão preciosas como as fotos, pois as anotações também congelam momentos importantes, não em imagens, mas em palavras.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

20 motivos para ser mãe aos 40


Quando minha primeira e única filha nasceu, havia completado meus 40 anos e senti medo do
desafio de me tornar uma mãe madura. Será que eu daria conta do recado? Hoje, depois de muitos percalços e alegrias, percebi que ser mãe vale a pena em qualquer idade. A vantagem da mãe madura é ter senso de humor para abraçar as mudanças da vida. Confira na lista de 20 motivos para ser mãe aos 40.

1.      Você já é uma pessoa mais vivida e, portanto, mais preparada para assumir a tarefa maravilhosa e gigantesca que é criar outro ser humano.
2.      Ou, pelo menos, você é uma pessoa vivida o bastante para saber que nunca se está pronto para uma tarefa tão gigantesca, mas a gente tem que encarar assim mesmo.
3.      Mesmo sendo vivida, você ainda é muito jovem, tem muito o que viver e aprender. Afinal, os 40 anos hoje são os novos 30.
4.      Aliás, aprender coisas novas nos faz sentir mais jovens. Então, prepare-se para um verdadeiro tratamento rejuvenescedor. A cada dia, o bebê vai lhe ensinar algo novo porque ele é sempre imprevisível!
5.      Ser mãe aos 40 é bom porque você já conquistou estabilidade financeira.
6.      Ou talvez você ainda não tenha conquistado a estabilidade financeira, mas ao menos ultrapassou a fase de achar normal gastar mais que o valor do seu salário em sapatos novos.
7.      A esta altura da vida, você já está terminando de pagar o financiamento do apartamento ou do carro, o que significa que vai sobrar grana para o financiamento do berço, do trocador, da banheirinha, do carrinho de bebê, do enxoval...
8.      Todas as suas amigas já tiveram filhos e podem dar ótimas dicas e conselhos.
9.      Todas as suas amigas já tiveram filhos e podem emprestar roupas de grávida.
10. Todas as suas amigas já tiveram filhos e podem emprestar roupinhas de bebê usadas. Aliás, nem tão usada a roupinha é, pois os bebês não fazem grande coisas para desgastá-las, além de vomitar nelas, é claro.
11. Seu relacionamento com seu marido está mais maduro, mais estável.
12. E como relacionamento “mais estável” às vezes significa “caiu na rotina”, vocês já estarão treinados para ficar sem sexo por um bom tempo, pois nas primeiras semanas de vida do bebê, mal sobra energia para escovar os dentes.
13. Você não tem mais tantas ilusões aos 40. Sabe que a lei da gravidade é imutável e seus peitos vão cair independente de amamentar ou não. Então, para que se preocupar?
14. Sei que há muita coroa enxuta, com o corpo sarado nas academias, que pode muito bem encarar uma mini saia. Mas, convenhamos, 40 anos não é mais idade para vestir essa peça (perguntem à Glória Kalil. Eu, que tive a sorte de estar na palestra dela em BH, perguntei). Então, se a mini saia não te pertence mais, qual o problema em se ganhar mais 3.200 furinhos de celulite nas coxas depois de engordar os 27 quilos da gravidez? Relaxe!
15. Você viajou, dançou em boates até de madrugada, misturou cerveja com caipivodka (quem nunca?), pulou de bungee jump, visitou clubes de swing, enfim, já curtiu a vida adoidado. Assim, será mais fácil se conformar com seu novo programa de sábado: pizzaria para famílias com playground, você dando umas garfadas na pizza fria no meio daquela barulheira de crianças gritando e parando a cada 20 segundos para acudir seu filho que está caindo do escorregador.
16. Depois dos 40, suas prioridades mudam, tornando-a mais apta à vida materna. Por exemplo, ninguém podia tocar na sua coleção de 67 corujas de porcelana. Hoje, sobraram três corujinhas, duas delas coladas com superbonder e tudo bem.
17. Outra prioridade que caiu por terra: era terminantemente proibido comer no sofá novo da sala de estar. Hoje, sofás, almofadas, cadeiras ou cortinas têm manchas de cores variadas, dependendo do que seu bebê estava comendo e tudo bem.
18. Até os 40 anos, você dormiu 14.600 noites. Para que mais? Você já tem horas de sono o suficiente para nunca mais precisar dormir direito pelo resto da sua vida, que é exatamente o que acontece depois de se tornar mãe.
19. Os cabelos grisalhos e as primeiras ruguinhas começam a aparecer aos 40. Entretanto, ao se tornar mãe, será justo como uma quarentona que você irá conhecer alguém que irá achá-la a mulher mais linda do mundo para sempre.
20. Agora, o melhor motivo de todos para ser mãe aos 40: sua vida irá começar toda de novo. Tudo o que já havia se tornado cansativo, rotineiro e sem emoção, irá renascer pelos olhos do seu filho. O Natal volta a ser mágico, o carnaval volta a ser novidade e os bichos voltam a ser seus grande amigos. Encontrar uma joaninha andando na mão é novamente uma promessa de sorte, São Jorge matando um dragão retorna a habitar a lua e as bruxas dão medo outra vez. A cada pedacinho do mundo que você apresenta ao seu filho, você também o conhece de novo como se fosse a primeira vez. Nesses momentos, eu fecho meus olhos e rezo em silêncio: “Obrigada, meu Deus, por me deixar nascer de novo”.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Afinal, funk é música de criança?

Quando encontrar sua menina de cinco anos rebolando, muita calma nessa hora.





Eu juro que lutei com todas as minhas forças, mas ele foi mais forte e conseguiu pegar minha filha. Um belo dia, ao chegar a casa, ouvi minha pobre e inocente garotinha, de apenas cinco anos, cantando... Funk! O choque foi inacreditável, corri até ela perguntando em desespero onde foi que ela ouvira aquela música. Placidamente, ela respondeu:

- Na escola, mãe.
- A professora colocou funk para vocês ouvirem? – minha voz estava bem histérica neste ponto. Afinal, o valor da mensalidade era tão alto que imaginei que a qualidade da escola estaria à altura do seu custo.
- Não, foi minha coleguinha quem me ensinou.

Foi assim que o funk se infiltrou em nossas vidas, através da boquinha de outra inocente, que além de ensinar a música, também fez uma demonstração dos passos de dança que acompanham a letra e que são recheados de rebolados e gestos sensuais.

Não há escapatória, você vai ouvi-lo, quer queira ou não. O problema não é a música. Está bom, é a música! Sei que gosto não se discute e não sou nenhuma expert no assunto, mas, vamos admitir que a melodia é repetitiva, quase com a mesma base rítmica em todas as músicas e muitas letras são rasas e grosseiras. Só isso, já seria preocupação suficiente para uma mãe que gostaria de poder oferecer uma formação de qualidade para a filha. Isso, não se obtém apenas na escola, a criança vai se formando com diversos estímulos que vão dos livros que lerão às músicas que apreciarão. Qual o estímulo que MCs e Anitas estão trazendo para as crianças?

A resposta mais óbvia é a sensualização antecipada. Mas, porque esses artistas estão conquistando o público infantil? Acredito que muitos programas de TV dirigidos às crianças não conseguiram encontrar a linguagem desta nova geração Y e Z, ainda não estabeleceram contato e ocupar o espaço que deveriam. Já não se fazem crianças como antigamente...

Tudo bem, agora vocês vão pensar que eu já passei da idade e que no meu tempo (essa frase é impiedosa) eu também gostava de barulhos que não eram considerados por meus pais como expressão musical. Eu concordo, é a lei da evolução, todas as espécies se submetem a ela. Mas, vamos combinar que Legião Urbana, Capital Inicial, Plebe Rude, Kid Abelha e Ultrage a Rigor tinham mensagens bem mais consistentes em suas músicas do que apenas o objetivo de listar instruções sobre como fazer a dancinha da bicicletinha ou a técnica de colar a bunda no chão. Claro, há outros temas que também são abordados pelo funk, como a atual mania de sair esculachando todo mundo na música, principalmente as mulheres que são as invejosas, as fogosas, as bandidas, as cachorras, as recalcadas, as atoladas e por aí vai. O mais triste é ver meninas muito jovens dançando essas músicas sem jamais pararem para pensar se essa é a imagem que elas acham adequada para se retratar uma mulher. Não passa pelas cabecinhas rodopiantes de longas madeixas chapadas que, nessas mesmas músicas, nenhum homem e retratado com tal desrespeito.

O que me preocupa também é a possibilidade da minha filha se saciar com essa música, essa prosa que não exige raciocínio, pois não consegue ser poesia. Sinto tristeza em pensar que minha filha não terá suas lembranças embaladas por frases como: “todo dia a insônia me convence que o céu faz tudo ficar infinito”. Ou ainda: “vida, louca vida, vida breve. Já que eu não posso te levar, quero que você me leve”.

O que nos resta é oferecer diversidade sempre, dedicar tempo a apresentar outras músicas, outros sons, outras danças aos nossos filhos. Fazê-lo vivenciar outras opções culturais e poucas coisas fazem isso com mais intensidade que a experiência presencial. Leve sua criança para ver um show de música de verdade, ao vivo, e quanto mais cedo, melhor, pois na adolescência, seu filho com certeza não irá aceitar o convite. E você nem pode criticá-lo por isso, pois com certeza, na sua adolescência, aposto que odiava o disco de vinil do Agnaldo Rayol da sua mãe.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Astronauta ou detetive?

- Mãe, antes, eu era menina pequena. Agora, eu sou menina média e vou até na escolinha. Quando eu for menina grande, vou para a faculdade.
- E você por acaso sabe o que é faculdade, Laura?
- Sei, sim. é a escola de gente grande estudar.
- Parabéns, filha! Você vai adorar a faculdade, sabe por que? Faculdade é a escola na qual gente escolhe o que quer estudar. Você é quem escolhe a matéria. Não é legal?
Os olhinhos da menina brilharam:
- Já sei o que eu vou escolher. Eu quero estudar... As estrelas!
- Que lindo, amor! Você vai ser astrônoma.
Ela me olha espandada:
- Não, eu vou ser astronauta. É isso o que eu quero ser quando eu crescer. Ou vou ser astronauta ou detetive!

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Qual a hora certa para explicar a morte para seus filhos?

Tratamos nossos filhos pequenos como se fossem bebês, pensando que, em cabecinha de criança só entram nuvens azuis e balões cor de rosa. Daí a surpresa total quando da boquinha deles sai uma pergunta que nos desconcerta e põe em dúvida nossa decisão de não tocar em certos assuntos.

Comigo, a surpresa aconteceu durante o momento leitura que promovo todas as noites com minha filha de 4 anos. Nessa noite, diferente das histórias infantis, ela veio carregando um livro mais grosso; era uma antiga enciclopédia, aquele artefato pré-histórico que se usava para fazer pesquisas escolares antes do Google, que ela havia encontrado jogada num armário. Nas primeiras páginas, a história do antigo Egito era apresentada com imagens de pirâmides e sarcófagos moldados à imagem dos faraós. Expliquei as ilustrações da melhor forma possível, quando ela apontou para um desenho onde os escravos enfaixavam um corpo.

- O que é isso, mamãe?
- É uma múmia, tipo aquela do desenho dos monstrinhos.
- Mas, múmia é pessoa? Como ele vai respirar?
- Não, filha, eles enfaixavam as pessoas que morriam, que iam para o céu.
- Por que a pessoa morria?
- É normal, meu amor. Todo mundo morre.

Nesse instante, minha filhinha ergueu os olhos assustada e perguntou com a voz mais doce do mundo:

- E eu mamãe? Eu também? Vou morrer também?

Não consegui responder, acho que não conseguia sequer me mexer, mas ela continuava a perguntar seu inocente: “E eu?”. Com a voz tremendo, expliquei que ela não precisava se preocupar com isso, pois era algo em que só deveria pensar daqui há muitos e muitos anos. Foi por pouco que não chorei, pois até aquele exato momento, nem eu mesma ousava lembrar que a minha filha, meu maior tesouro, é tão mortal quanto os faraós. A presença daquela ideia me perturbava, e eu sou uma mulher madura. Imagine na cabeça dela? Afinal, qual é o momento exato para se falar da morte com nossos filhos?

Esse não havia sido o primeiro contato dela com a noção de que somos passageiros. Na sua curta vidinha, minha criança conheceu a dor da partida através dos bisavós; um morreu logo após o outro porque a “bisa” não via mais sentido em ficar por aqui sem o seu velho príncipe encantado. Mas havia sido algo distante, que só se tornou concreto nas visitas à casa antiga dos bisavós, onde agora restavam apenas os tios e os avós. Aprendia a morte pela ausência, sem a visão triste que nós adultos temos do velório, o horrendo bicho papão que tratamos de enfeitar com o máximo de flores possíveis.

Até que um dia, morreu seu passarinho de estimação e meu marido achou que seria uma boa oportunidade para uma lição sobre a vida, permitindo que nossa filha visse a morte apresentada pela mão do pai, onde jazia o corpinho rijo coberto de penas amarelas. Ela o olhou bem de perto enquanto ouvia seu pai dizendo que Buba estava morto e seria enterrado no jardim. A menina deu uma risada e voltou a brincar com a boneca. Decepcionado, meu marido, que esperava ter que acalentar a filha aos prantos, foi preparar o funeral do bichinho. Daí a uns minutos, ela apareceu correndo no jardim, procurando o pássaro. Ficou olhando o montinho de areia, atônita, e por fim entendeu:

- O Buba foi ficar com o biso a e bisa, pai?

É uma preocupação torturante essa, sobre decidir o momento certo de permitir que nossos filhotinhos tenham contato com as dores do mundo; de preferência escolheríamos que eles só sofressem depois dos 45 anos de idade. Mas, as coisas podem ser mais simples do que imaginamos. A hora certa para se falar de morte não existe, ela acontece para cada criança de acordo com suas experiências. O importante, é jamais fugir da pergunta, pois quando a criança chega a formular um questionamento, ela já está pronta para ouvir uma resposta sobre o assunto. Claro que pode ser uma resposta suavizada, sem muitos detalhes, mas sempre verdadeira. Não precisamos ter medo pois, eles entenderão e aceitarão a morte dentro da suas possibilidades e sofrerão de acordo com o tamanho de seus coraçõezinhos. Ou seja, mais ou menos como eu e você.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Coisas de Laurinha

TOC, TOC, TOC!

- Mãe, vem jogar bola comigo.
- Laura, espera que eu estou no banheiro, filha.
- Mãe. Mãe. Mãe. Ô mãe...
- Espera um pouco filha.
- Vem jogar bola, mãe!
- Eu já falei, Laura! Você tem que aprender a esperar, ouviu? ESPERA!
- Ih, mãe! Eu tenho ESPERANÇA sim. O que eu não tenho é PACIÊNCIA.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Filho único – a tendência da nova família?

Mimado, solitário e sufocado por excesso de atenção – seu filho único não precisa ser assim.


A família brasileira diminuiu de tamanho, foi o que comprovou o Censo de 2010 onde a média da prole bateu seu menor índice – 1,9 filhos por mulher. Basta lembrar-se da nossa própria infância, quando se aprendia em casa a difícil arte de dividir. Na minha família, éramos quatro meninas dividindo o mesmo quarto, os mesmos brinquedos e a atenção dos pais. Apesar das brigas, cabelos puxados e outras pirraças, dividir a infância com minhas irmãs tornou essa fase uma das mais ricas que já vivi. Hoje, minhas irmãs são minhas melhores amigas com quem eu divido problemas, alegrias e, às vezes, dívidas. Penso em como seria solitário não ter a presença dessas mulheres em todas as etapas da minha vida

Por esse motivo, muitas vezes me sinto incerta sobre a decisão que tomei de ser mãe de filha única. Condenei minha filha à solidão? Essa sempre foi minha maior preocupação, agravada constantemente pelos pedidos insistentes da minha menininha para que desse a ela um irmãozinho. O desejo dela por esse companheiro era tão premente, que me levou às lágrimas mais de uma vez. Se já é difícil dizer não a nossos filhos quando eles nos pedem um chocolate fora de hora, imagine o aperto no peito ao negarmos a eles o nascimento de um irmão! Acredite isso fornece culpa o suficiente para você passar noites em claro se sentindo a mais cruel das mulheres.

Cada uma das mães que tomam essa decisão tem seus motivos. Meu principal motivo foi o desejo de poder oferecer à minha filha a bicicleta, o curso de inglês e a festa de 15 anos que eu não pude ter porque o orçamento precisava ser dividido entre quatro irmãs. Não sei se foi a melhor decisão, mas essa é a escolha com a qual toda uma geração de filhos únicos terá que aprender a conviver sem se tornarem um bando de mimados fracassados. Afinal, esse também é um dos temores dos pais de filhos únicos, a possibilidade de que tantos cuidados, tanta atenção, tanto amor e privilégios direcionados para uma única pessoa a despoje do espírito de luta, da força de vontade, e semeie um campo fértil para a preguiça e a auto-indulgência.

Então, se o filho único é a nova tendência do planeta, como evitar esse possível desastre? Este é o plano de ação que estou aplicando na educação da minha filha e muitos resultados positivos já podem ser notados mesmo aos 5 anos de idade.

  1. Dê responsabilidades. Minha avó já dizia: “Trabalho de criança é pouco, quem desperdiça é louco”. No mundo do politicamente correto, essa frase causaria protestos, mas não se trata de fazer uma criança descascar castanha de caju aos dois anos de idade, como vemos na triste realidade de algumas localidades no Brasil. O filho deve ter o dever de guardar os brinquedos, catar papel picado do chão ou qualquer outra sujeira que ele mesmo provocar. À medida que cresce, crescerão as tarefas. As mães reclamam que as crianças deixam tudo bagunçado, mas isso é normal se você desconhece o trabalho que dá limpar e arrumar.
  2. Cobrar respeito. Gritou com a avó? Castigo. Xingou a babá? Castigo. Bateu no coleguinha? Castigo. Desrespeito com qualquer pessoa deve ser considerado falta grave para que ele perceba que ser filho único não quer dizer que ele é o único que importa.
  3. Ensine seu filho a se divertir sozinho. É claro que a socialização é muito importante, mas pense em como essa lição é valiosa, pois até na vida adulta precisamos entender que não podemos depender do outro para sermos felizes. A felicidade, quem faz somos nós mesmos.
  4. Lembre sempre a si mesmo o que é um direito do seu filho e o que é um privilégio. Boas escolas, viagens, lazer, cursos, plano de saúde, tudo isso é um direito do seu filho. Mas, e aquela bike ultra-moderna? E o tablete de última geração? Sempre pergunte a si mesmo: isso é um direito ou um privilégio? Se é um privilégio, ele deve merecê-lo. Defina metas, como atingir uma nota x em tal matéria para ganhar a bicicleta.
  5. Os primos são os novos irmãos do filho único. Incentive a convivência com os primos. Cada uma das minhas irmãs teve também um único filho, bem como meus cunhados. A ligação com esses primos serão os relacionamentos mais próximos da fraternidade que minha filha conhecerá, por isso é bom que seja incentivada uma atitude de proteção e colaboração entre eles, para que cresçam sabendo que podem contar uns com os outros, como eu posso contar com minhas irmãs para sempre.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Você está pronto compras de Natal? - Dê ao seu filho o que ele está pedindo. Mas, surpresa, pode não ser um brinquedo.

Criança precisa brincar. Além da diversão, a brincadeira proporciona que a criança experimente situações, organize suas emoções e desenvolva sua personalidade, como você e eu fizemos um dia. A diferença é que, hoje, brincar é uma coisa bem mais complexa.

A geração entre 30 e 40 anos deve se lembrar muito bem que, para uma boa brincadeira, eram necessárias apenas duas coisas: um bom quintal e um bando de moleques da rua. Pronto, a farra estava garantida. O quintal tinha todos os brinquedos que tornavam as brincadeiras inesquecíveis, como uma goiabeira para se subir, um pneu velho para girar e terra com minhocas, ingredientes básicos para se preparar uma sopa de bruxa.

Com o tempo, brincar se tornou uma atividade sofisticada. Uma garota que se preze não pode ter apenas uma Barbie, tem que ter uma coleção. Afinal, a Barbie pode ser veterinária, rock star, sereia, estrela de cinema e é preciso ser todas elas. Para os garotos, de que vale o Max Steel sem adquirir junto seus apetrechos mortíferos e os monstros vilões para ele combater? É verdade que o brinquedo hoje é mais acessível e o crédito está mais fácil. Mas, em contrapartida, as crianças aprenderam a exigir marcas e o conceito da quantidade de brinquedos necessária para fazer os filhos felizes mais que triplicou. Serão mesmo necessários tantos presentes para as crianças crescerem completas? Ou estamos tentando compensar algo?

Se não me falha a memória, aos seis anos eu tinha duas bonecas. Minha filha de cinco anos possui mais de dez e isso ainda é pouco, se comparada às coleguinhas da escola. Segundo a Abrinq (Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos), em 2012 o Brasil vendeu R$ 676,4 milhões em brinquedos no Natal. Nós, pais, somos os responsáveis por essa cifra, e vamos contribuir de novo neste ano, afinal, Natal é Natal. O presente mais caro, o mais esperado é sempre prometido para essa data e vira objeto de mil chantagens. “Se você não se comportar, não vai ganhar a bicicleta no Natal, viu?” Que atire a primeira pedra o pai que nunca pronunciou essa frase. Afinal, também somos apenas crianças maiores tentando aprender a arte de criar outro ser humano, de preenchê-lo com valores reais e dignos que o tornem um adulto melhor que nós mesmos. Mas, estarão os nossos valores realmente equilibrados com essa visão ideal que temos da pessoa de bem e digna na qual sonhamos transformar nossas crianças? Quando você abarrota as prateleiras com bugingangas, não volta para casa sem uma lembrancinha e nunca diz não ao seu filho durante uma birra no meio de uma loja de brinquedos, qual é o valor que você está ensinando a ele?

O excesso de brinquedos pode tentar compensar horas de qualidade para as quais não temos tempo e, às vezes, nem disposição para fazerem acontecer entre nós e nossos filhos. E quando presenteamos o filho que chora, pedindo/exigindo um brinquedo, não apenas lhe damos aval para fazer birra, mas também fazemos com que ele passe a duvidar da nossa bondade. Afinal, que tipo de pai cruel é esse que premia o filho, mas apenas depois de assisti-lo chorar, sofrer e se debater em desespero?

Para fugir dessa armadilha, é preciso pensar antes da compra: estou satisfazendo uma necessidade ou um objeto? Meu filho precisa brincar ou precisa do brinquedo? A criança não deve obter coisas porque pede, mas porque precisa delas. Quando a vontade de encher seu pimpolho de mimos bater, lembre-se que dar tudo a ele é provavelmente o caminho mais curto para torná-lo um fraco, pois suportar contrariedades e aprender a valorizar as coisas são experiências que fortalecem as pessoas. Esse é o presente que seu filho merece ganhar. Claro, com algumas exceções. O Natal continua valendo um bicicleta.


segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Creme dental contra bichos comedores

Toda noite, aparece um monstro lá em casa. É o Bichinho Comedor de Dentes. Admito: inventar monstros está longe de ser considerado uma forma adequada de educação; é um método totalmente ultrapassado usado por nossos pais e avós e que pode traumatizar uma criança. Mas, depois de travar pela milionésima vez a inglória batalha de tentar escovar os dentes da minha filha por bem, usando as explicações lógicas de higiene e saúde, simplesmente desisti e optei pelo golpe baixo.

- Então, você não quer escovar os dentinhos, não é? Lembra que a vovó disse que seu primo Mateus foi ao dentista? Sabe por quê? Ele não escovou os dentes e o Bichinho Comedor de Dentes, que adora sujeira, entrou na boca dele!

Round 1: Laura arregala os olhos.

- Isso mesmo filha - meu marido resolve me apoiar, fazendo uma voz assustada. Eu acho que o Bichinho Comedor está vindo aí, não é mamãe?

Viro-me de lado e faço um rugido disfarçado.

Roud 2: Laura se aconchega nos braços do pai.

- Calma, filha, eu vou jogar o bicho pela janela enquanto sua mamãe escova seus dentes. Assim, ele não vai entrar na sua boca!

Com essa frase de impacto, meu marido sai valentemente do quarto e trava uma luta com o Bichinho Comedor de Dentes com direito a gemidos e sons de tabefes.

Round 3: pela primeira vez na vidinha dela, Laura abre a boca docilmente para que eu escove os dentes, sempre com os olhinhos arregalados olhando para a porta à espera da entrada do vencedor da luta. Quem teria sobrevivido? Seu pai ou o Bichinho Comedor de Dentes? Aproveito para escovar com o maior capricho em cada dentinho, inclusive dando uma boa esfregada na língua! Um luxo! Nocaute! papai e mamãe, um, Laura, zero. Depois eu rezo um terço para a Santa Super Nanny das mães desesperadas como penitência.


sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Quintal


Quando uma criança não tem irmãos, vizinhos da mesma idade, não há uma praçinha, um parquinho, um playground, ou seja, é uma completa prisioneira dentro de um apartamento, é uma situação de partir o coração.

Assim é a vida da minha filha, uma solitária vidinha correndo do quarto para a sala, da sala para a área e de novo para a sala. A sua janela para o mundo é a televisão. Por ela entra a maior parte das coisas que enchem de significado a vidinha de Laura. Todos os dias agradeço pelo Discorey Kids! Pelo menos são desenhos mais selecionados, sem violência, com boas mensagens e uma sofisticação visual de humilhar nossos antigos desenhos do Manda Chuva ou do Tom e Jerry. Mas, mesmo assim, é só uma televisão. Eu fico lembrando da minha meninice, subindo na jabuticabeira da casa da minha tia, saboreando a fruta colhida direto do pé, rodeada de patos e galinhas. Me vem saudades das visitas na casa da outra tia que criava coelhos e eu podia acariciar os filhotinhos e sentir sua vida pulsando em minhas mãos. Bom, é verdade que ela vendia os coelhos para serem abatidos num restaurante depois que estavam na idade certa, mas na época eu nem desconfiava disso, para mim aquele quintal era apenas o paraíso dos bichinhos fofinhos, que andavam engraçado e comiam as folhinhas que eu lhes entregava. Quintal! Olha só que palavra linda! Na minha casa também havia um, com terra, pedrinhas, gramíneas, formigueiros, minhocas e outras preciosidades que eram muito úteis para se fazer uma boa sopa de bruxa.

E a minha pequena? Onde estão as minhocas para ela brincar ou a terra debaixo das unhas? Meu sonho de consumo hoje é um quintal. Não me importa mais ter uma boa casa, o importante é ter um quintal para morar. Um lugar para Laura crescer junto com um cachorro, os dois rolando na terra, se beijando e lambendo, como eu beijava e lambia os meus cachorrinhos.

Hoje, Laurinha tem que ir à casa das avós para ver cachorros. Na vovó Conceição, há o caridoso Pierre, um pudle standard com uma estranha paciência em relação aos ataques violentos de carinho da minha filha. Laura puxa-lhe as orelhas, senta em sua cabeça, monta sobre ele e fustiga-o como um pônei maldito, coitado! Na vovó Tereza, a coisa é mais séria, dois cães neurastênicos e vira-latas não são de muita confiança e o contato com Laura é mais restrito. Mesmo assim, ela vai ao delírio só de vê-los.

Mas não existem apenas desvantagens na vida de Laurinha. Criança de apartamento, criada pela Discovery Kids é assim: sem lombriga e cheia de vocabulários sabidinhos. Um dia, saio correndo para trabalhar e ela filosofa com a babá: "Se a mamãe perder o ônibus, vai ficar muito desapontada!". No final de semana, me veio com essa: "Tô fora de cortar a unha, viu mamãe?". Até ataca de poesia, subindo em minha cama numa manhã: "Mamãe: a lua já foi embora e o sol já surgiu!" Tudo uma graça sem fim. Mas mesmo assim, ainda preferia minha menina num quintal, com as unhas sujas de terra e um filhote de vira lata crescendo ao seu lado, como um companheiro inseparável de travessuras.