Anotar as graçinhas do seu filho pode ser uma lembrança tão poderosa quanto uma foto.
Quando engravidei, ganhei dois
exemplares do chamado “livro do bebê”, uma espécie de álbum de recordação onde
a mãe anota absolutamente tudo sobre seu rebento. Peso ao nascer, nota no Apgar
(teste que dá uma nota às condições do recém-nascido, um e cinco minutos depois
do parto), altura (ou melhor, comprimento, porque o bichinho nem fica de pé
ainda) e qualquer outra mensuração, índice ou porcentagem que seja possível.
Depois, anotam-se todos os números de novo, à medida que a criança vai
crescendo. E as datas? É preciso registrar o dia que caiu o umbigo, que levou o
primeiro tombo, que riu pela primeira vez, que perdeu o primeiro dente... É o tipo
de diversão que qualquer mãe com transtorno obsessivo compulsivo irá adorar.
Para piorar minha situação, eu
tinha que preencher os dois álbuns, para não desagradar nem minha mãe e nem
minha irmã que me presentearam. Sentia uma culpa terrível quando perdia a data
de algum acontecimento importante, por exemplo, o primeiro corte de cabelo,
então, tratava de inventar algumas informações, só para manter os livros
completos. Hoje, não sei o que é falso ou verdadeiro nos números anotados, mas
as palavras sim, essas são todas reais. Nas páginas com mais espaço, comecei a
anotar as gracinhas que minha filha dizia do alto dos seus dois aninhos de
idade. Sabia que me arrependeria se não o fizesse, pois às vezes, me lembro que
meus sobrinhos diziam coisas que nos faziam rir por dias, mas ninguém se
recorda mais das frases encantadoras, desconcertantes e curiosamente sábias que
saíam daquelas boquinhas.
Hoje, adolescentes, meus sobrinhos
adoram quando conto algumas histórias onde eles foram os protagonistas das
melhores tiradas. Riem surpresos, tentando se reconhecer nos casos que a tia
vai contando, como no dia em que minha irmã ensinava meu sobrinho a rezar o pai
nosso, falando apenas parte das frases e deixando-o completar a última palavra.
Ela: Assim como nós perdoamos a
quem nos tenha...
Ele: Ofendido!
Ela: E não nos deixei cair em...
Ele: Nenhum buraco!
Às vezes, ao invés de risos, as
crianças nos arrancam lágrimas. Ao tentar superar a saudade da tia avó que
havia morrido, minha sobrinha contou-nos seu plano:
- A gente sobe numa escada muito
alta, pega a faca de pão, serra o azul do céu e tira a Tia Cida de lá de
dentro. Assim, ela pode voltar a viver com a gente aqui. Só falta saber se ela
está no céu dessa janela aqui ou no céu da janela da outra sala.
A minha filhinha faz o gênero mais prático. O negócio
dela é mandar em todas as brincadeiras e, geralmente, ser do contra. Se você
quer brincar de um jeito, ela, invariavelmente, quer de outro. Um dia,
brincando com ela de Polly, aquela bonequinha minúscula de troca roupinhas de
plástico, resolvi colocar todos os meus conhecimentos de Indiana Jones
misturados com um clima de Harry Potter para criar um cenário mágico para nossa
brincadeira. Enquanto movia as nossas duas bonequinhas pelo chão, fui narrando:
- E aí, as bonequinhas entraram
num misterioso castelo perdido...
Arrancando as Pollys das minhas
mãos, minha filha repetiu meu movimento, fazendo-as andar pelo chão e dizendo:
- Nada disso, mãe. E aí, as
bonequinhas entraram no Carrefour!
Com certeza, lembranças como essas
devem ser anotadas por serem tão preciosas como as fotos, pois as anotações
também congelam momentos importantes, não em imagens, mas em palavras.

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