Quando encontrar sua menina de cinco anos rebolando, muita calma nessa hora.
Eu juro que lutei com todas as minhas forças, mas ele foi
mais forte e conseguiu pegar minha filha. Um belo dia, ao chegar a casa, ouvi
minha pobre e inocente garotinha, de apenas cinco anos, cantando... Funk! O
choque foi inacreditável, corri até ela perguntando em desespero onde foi que
ela ouvira aquela música. Placidamente, ela respondeu:
- Na escola, mãe.
- A professora colocou funk para vocês ouvirem? – minha voz
estava bem histérica neste ponto. Afinal, o valor da mensalidade era tão alto
que imaginei que a qualidade da escola estaria à altura do seu custo.
- Não, foi minha coleguinha quem me ensinou.
Foi assim que o funk se infiltrou em nossas vidas, através
da boquinha de outra inocente, que além de ensinar a música, também fez uma
demonstração dos passos de dança que acompanham a letra e que são recheados de
rebolados e gestos sensuais.
Não há escapatória, você vai ouvi-lo, quer queira ou não. O
problema não é a música. Está bom, é a música! Sei que gosto não se discute e
não sou nenhuma expert no assunto, mas, vamos admitir que a melodia é
repetitiva, quase com a mesma base rítmica em todas as músicas e muitas letras
são rasas e grosseiras. Só isso, já seria preocupação suficiente para uma mãe
que gostaria de poder oferecer uma formação de qualidade para a filha. Isso,
não se obtém apenas na escola, a criança vai se formando com diversos estímulos
que vão dos livros que lerão às músicas que apreciarão. Qual o estímulo que MCs
e Anitas estão trazendo para as crianças?
A resposta mais óbvia é a sensualização antecipada. Mas,
porque esses artistas estão conquistando o público infantil? Acredito que
muitos programas de TV dirigidos às crianças não conseguiram encontrar a
linguagem desta nova geração Y e Z, ainda não estabeleceram contato e ocupar o
espaço que deveriam. Já não se fazem crianças como antigamente...
Tudo bem, agora vocês vão pensar que eu já passei da idade e
que no meu tempo (essa frase é impiedosa) eu também gostava de barulhos que não
eram considerados por meus pais como expressão musical. Eu concordo, é a lei da
evolução, todas as espécies se submetem a ela. Mas, vamos combinar que Legião
Urbana, Capital Inicial, Plebe Rude, Kid Abelha e Ultrage a Rigor tinham
mensagens bem mais consistentes em suas músicas do que apenas o objetivo de
listar instruções sobre como fazer a dancinha da bicicletinha ou a técnica de
colar a bunda no chão. Claro, há outros temas que também são abordados pelo
funk, como a atual mania de sair esculachando todo mundo na música,
principalmente as mulheres que são as invejosas, as fogosas, as bandidas, as
cachorras, as recalcadas, as atoladas e por aí vai. O mais triste é ver meninas
muito jovens dançando essas músicas sem jamais pararem para pensar se essa é a
imagem que elas acham adequada para se retratar uma mulher. Não passa pelas
cabecinhas rodopiantes de longas madeixas chapadas que, nessas mesmas músicas,
nenhum homem e retratado com tal desrespeito.
O que me preocupa também é a possibilidade da minha filha se
saciar com essa música, essa prosa que não exige raciocínio, pois não consegue
ser poesia. Sinto tristeza em pensar que minha filha não terá suas lembranças
embaladas por frases como: “todo dia a insônia me convence que o céu faz tudo
ficar infinito”. Ou ainda: “vida, louca vida, vida breve. Já que eu não posso
te levar, quero que você me leve”.

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