Não importa quantos eufemismos usemos para disfarça-lo.
Podemos chamar de hora de descansar, momento para pensar ou dar um tempo. O
verdadeiro nome, castigo, está lá escondido. E porque deveria estar? Sentimos vergonha
de castigar nossos filhos como se estivéssemos sendo cruéis. Claro, existem
castigos e castigos. A crueldade com que crianças são tratadas existe e, nem
sempre, é apenas na hora do castigo. Frieza e indiferença com as crianças é
muitas vezes a crueldade mais comum. Mas, tirando as aberrações de torturas
físicas e psicológicas, castigar um erro é certo ou errado?
Se no modelo de relacionamento entre pais e filhos usado nos
anos 50 a 70, o distanciamento e a rigidez das regras trouxeram malefícios, o
afrouxamento total que os pais das últimas décadas têm apresentado beira a
mediocridade. Afinal, ser pai e mãe de verdade exige trabalho, acompanhamento
e... Correção. Já estou até vendo narizes se torcendo por minhas ideias
antiquadas, porque ninguém quer este papel, não é? Quem quer ser o chato que
critica, que coloca de castigo? Muito mais bacana é ser amiga do filho. Só que,
amigo do seu filho, todo o mundo pode ser, mas apenas você pode ser a mãe. Se
não ensinar e der limites desde o começo, outra pessoa vai fazer isso por você.
Pode ser um professor ou pode ser um policial. Pior, pode ser um traficante.
Nunca usei enfeites no nome, sempre fui clara com minha
filha que as ações têm consequências que podem ser boas ou ruins. Quando ela recebesse um castigo era para se lembrar disso. Então, escolhi um canto da sala
que foi denominado canto do castigo. Não haveria gritos (claro que, às vezes,
escapavam alguns) nem tapas (esses, só me escaparam duas vezes). Apenas me
agachava para ficar na altura dos olhos dela, a fim de não intimidar a menina, explicava
o motivo do castigo e, sem conversa, posicionava-a junto à parede pelo tempo da
idade (um minuto para cada ano de vida). Era tão civilizado que, lembrando-me dos
castigos do meu pai e dos tapas da minha mãe, me perguntava se funcionaria.
Mas, a criança aprende a nivelar por cima, então se ela recebia um tratamento
sempre bacana, mesmo um castigo tão leve era o suficiente para deixa-la
arrependida e até chorar.
Depois, vinha o momento de fazer as pazes, agachava-me
novamente e olhava-a nos olhos, perguntando se queria pedir desculpas e nos
abraçávamos. Nem sempre era tão certinho assim, às vezes ela me desafiava e não
pedia desculpas, então ganhava mais uns minutos no cantinho. Mas, no final,
dava tudo certo.
O inesperado foi que, quando você castiga desde cedo, a
criança evolui para um estágio diferente muito rápido, e mostra para você que
não precisa mais daquele tipo de castigo.
Um dia, minha filha de cinco anos me pediu para colar um
desenho na parede. Como iríamos pintar o apartamento, resolvi deixar. Quando
fui ver, ela havia colado um pequeno papel no exato local do cantinho do
castigo, com seu nome escrito e o desenho de uma menina com os lábios curvados
para baixo e lágrimas caindo dos olhos. Chorei, mas ela só disse: “Mamãe, é que
eu não preciso mais”. Agora, as conversas bastam, passamos para outra fase, eu
e minha menininha. Tudo, porque começamos do jeito certo.
