terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Cantinho do castigo

Não importa quantos eufemismos usemos para disfarça-lo. Podemos chamar de hora de descansar, momento para pensar ou dar um tempo. O verdadeiro nome, castigo, está lá escondido. E porque deveria estar? Sentimos vergonha de castigar nossos filhos como se estivéssemos sendo cruéis. Claro, existem castigos e castigos. A crueldade com que crianças são tratadas existe e, nem sempre, é apenas na hora do castigo. Frieza e indiferença com as crianças é muitas vezes a crueldade mais comum. Mas, tirando as aberrações de torturas físicas e psicológicas, castigar um erro é certo ou errado?
Se no modelo de relacionamento entre pais e filhos usado nos anos 50 a 70, o distanciamento e a rigidez das regras trouxeram malefícios, o afrouxamento total que os pais das últimas décadas têm apresentado beira a mediocridade. Afinal, ser pai e mãe de verdade exige trabalho, acompanhamento e... Correção. Já estou até vendo narizes se torcendo por minhas ideias antiquadas, porque ninguém quer este papel, não é? Quem quer ser o chato que critica, que coloca de castigo? Muito mais bacana é ser amiga do filho. Só que, amigo do seu filho, todo o mundo pode ser, mas apenas você pode ser a mãe. Se não ensinar e der limites desde o começo, outra pessoa vai fazer isso por você. Pode ser um professor ou pode ser um policial. Pior, pode ser um traficante.
Nunca usei enfeites no nome, sempre fui clara com minha filha que as ações têm consequências que podem ser boas ou ruins. Quando ela recebesse um castigo era para se lembrar disso. Então, escolhi um canto da sala que foi denominado canto do castigo. Não haveria gritos (claro que, às vezes, escapavam alguns) nem tapas (esses, só me escaparam duas vezes). Apenas me agachava para ficar na altura dos olhos dela, a fim de não intimidar a menina, explicava o motivo do castigo e, sem conversa, posicionava-a junto à parede pelo tempo da idade (um minuto para cada ano de vida).  Era tão civilizado que, lembrando-me dos castigos do meu pai e dos tapas da minha mãe, me perguntava se funcionaria. Mas, a criança aprende a nivelar por cima, então se ela recebia um tratamento sempre bacana, mesmo um castigo tão leve era o suficiente para deixa-la arrependida e até chorar.
Depois, vinha o momento de fazer as pazes, agachava-me novamente e olhava-a nos olhos, perguntando se queria pedir desculpas e nos abraçávamos. Nem sempre era tão certinho assim, às vezes ela me desafiava e não pedia desculpas, então ganhava mais uns minutos no cantinho. Mas, no final, dava tudo certo.
O inesperado foi que, quando você castiga desde cedo, a criança evolui para um estágio diferente muito rápido, e mostra para você que não precisa mais daquele tipo de castigo.
Um dia, minha filha de cinco anos me pediu para colar um desenho na parede. Como iríamos pintar o apartamento, resolvi deixar. Quando fui ver, ela havia colado um pequeno papel no exato local do cantinho do castigo, com seu nome escrito e o desenho de uma menina com os lábios curvados para baixo e lágrimas caindo dos olhos. Chorei, mas ela só disse: “Mamãe, é que eu não preciso mais”. Agora, as conversas bastam, passamos para outra fase, eu e minha menininha. Tudo, porque começamos do jeito certo.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Para casa, para tudo!

Agora, é para valer. O temível "para casa" do segundo período tem a frequência de três vezes por semana e não basta só colorir desenhos, não! Tem que escrever letras e números. Sei que os pais cujos filhos já estão cursando disciplinas de biologia e matemática acham meus temores risíveis. O que o dever escolar de uma criança de 5 anos pode ter de complicado? Fórmulas químicas ou conhecimentos avançados de física? Tudo bem, eu admito, que se eu tivesse que auxiliar minha filha em matérias cujas lembranças estão tão longínquas em minha memória, eu também estaria em apuros. Para ser vergonhosamente sincera, eu não sei mais de cor quanto é 7 vezes 8 nem tenho a menor ideia do que são mitocôndrias. Mas, há um grande desafio no "para casa" das crianças - elas mesmas e sua vontade de brincar só mais um pouquinho.
É só chamar para fazer o dever para começar a ladainha. "Mãe, justo agora que eu montei a casinha? Hoje eu não estou com vontade. Mas, vai começar os Backyardigans agora, mãe!" Argumentos não faltam para procrastinar a tarefa mais cinco minutos, depois mais 20 e por aí vai.
Se bater de frente, os efeitos podem ser devastadores. Usar a força para sentar o menino na cadeira ou xingar podem fazer a criança tomar verdadeira birra dessa tarefa que deve ser tornar uma rotina comum que o acompanhará por toda a vida escolar.
Mas, se bater de lado, aceitar adiar ou deixar para lá, com certeza também passa a ideia de que para casa não é uma obrigação. E é uma obrigação sim.
Meus pais me ensinaram isso desde pequena e não fiquei traumatizada, muito pelo contrário, me deu a única disciplina que funcionou na minha vida, a de levar os estudos como minha responsabilidade e o entendimento de que passar de ano era minha obrigação.
Não fui a primeira da classe mas nunca fiquei nem em recuperação.
Por isso, não tive dúvidas. Quando minha filha se recusou a fazer o para casa, abaixei-me, olhei-a nos olhos e disse:
- Filha, você não precisa fazer nada se não quiser. Só que, quem faz o dever aprende a ler e pode ler todos os livros e revistinhas em quadrinhos que quiser. Quem estuda, vai para a faculdade ser o que quiser. Você não quer isso?
- Não mamãe.
(Puxa! Não contava com essa... Ela nem sabe o que é faculdade, tem que ser algo que ela entenda. Já sei! )
- Se não fizer o para casa, não tem joguinho no computador.
- Abre o caderno aí, mãe.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Hoje tem marmelada? Tem sim senhor!

Trapezistas, malabaristas, mágicos e palhaços. Todos esses personagens fazem parte do meu imaginário infantil, muito mais pelos filmes dos Trapalhões e do Jerry Lewis do que por experiência mesmo. Não me lembro de ir ao circo na infância, me lembro dele entrar na minha cabeça pela magia do cinema de tal forma que eu tinha saudade do que nunca vivi. Que nostalgia dos espetáculos sob a lona colorida que, na verdade, jamais presenciei.
Finalmente, matei minha saudade imaginária do jeito mais poético que poderia esperar. Aproveitando a Campanha de Popularização do Teatro e da Dança, um dos eventos mais bacanas realizados em Belo Horizonte, levei minha filha e até meu marido eremita ao circo Irmãos Simões. Nada como ter uma criança para servir de desculpas para meu desejo secreto de ir ao circo. Mal sabia eu que, ao atravessar a boca da gigantesca cabeça de palhaço, recortada em madeira como um portal para a tenda, eu entrava numa máquina do tempo.
O espetáculo era o mais puro exemplo do circo brasileiro, mambembe, família. O pai equilibrista, depois de subir em cilindros, que ficavam balançando de cá para lá, equilibrou a própria filha de dois anos com uma das mãos. Era possível ver as fraldas por debaixo do body vermelho e brilhante. A mocinha que se arriscava dentro de uma caixa, na qual o mágico enfiava espadas impiedosas, estava de salto, mas devia ter uns 14 anos. Os trapezistas mais velhos, meio barrigudos, ainda davam seus saltos triplos e mortais. Girando no ar, eram jovens de novo. Entre eles, um rapaz magrinho tinha a silhueta certa para o negócio, mas lhe faltava ainda a ginga dos tios pesados. Ele foi apresentado como a terceira geração da família e no final do show, mostrou seu valor pulando um arco de fogo.
Na hora dos palhaços foi que lembrei que, na verdade, estava no espetáculo por causa da minha filha, pois foi quando ela mais vibrou, ficou de pé e deu suas risadas com a boca cheia de pipoca.

Que delícia ouvi-la rir, não por causa do joguinho de computador na qual ela é viciada, nem por causa dos desenhos que a hipnotizam na TV. Experimente e verá. Nada se compara à risada provocada por um palhaço se esborrachando no chão.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Mamãe, posso dormir na sua cama?

O que fazer quando os pequenos regridem e abandonam suas caminhas para pular na cama do casal.


A maior das maravilhas é ver nosso filho progredindo, sendo cada vez mais indenpendente. Cada libertação é comemorada - conseguir beber do copo sem derramar, ligar a televisão sem ajuda, vestir a própria blusa, etc. Mas, algumas evoluções das crianças são ainda mais comemoradas, uma vez que favorecem também aos pais. Fazer o filho dormir a noite toda no próprio quarto, em sua própria caminha e, de brinde, ganhar noites a dois mais  tranquilas, é um benefício que os pais podem levar anos para alcançar. Mas, e quando depois de todo treinamento, as crianças querem novamente o aconchego no ninho do leito dos pais?
Há cerca de três meses, minha filha passou a acordar diversas vezes na mesma noite, cada hora com um pretexto. Primeiro, pedia água, depois, para ir ao banheiro e por aí varava a noite. "Mãe, ascende meu abajur? Mãe, estou com frio. Mãe, tira minha coberta?"
Eu voltei aos tempos de quando ela era um bebê, levantando-me a todo instante atordoada de sono. Ao final de alguns dias, coloquei meu marido no sofá cama e a filha na minha própria cama, com um suprimento de água e biscoitos no criado mudo para não ter nem que levantar. Foi minha perdição. Aí que ela não parou mesmo de solicitar meus serviços como se eu fosse aquelas lojas 24 horas. 
Mudei de tática. Expliquei que ela já era uma minina grande e deveria ficar em sua cama. No meio da noite, quando ela me chamava, respondia sem me levantar: "Vire para o canto e vá dormir, filhinha". Você está pensando que minha estratégia foi tiro e queda, não é? Foi só assumir esta nova postura e tudo voltou ao normal. Infelizmente, não se fazem crianças como antigamente. Os modelos atuais são bem mais espertinhos.
Como Maomé parou de ir à montanha, minha filha resolveu sair do próprio quarto e, correndo para tomar altura, pular bem no meio da minha cama! Faltei ter um infarto da primeira vez em que ela me acordou assim, achei que era um terremoto.
Para solucionar esse problema, foi preciso vários dias e muita dedicação, mas se você não encarar logo, esse hábito pode se arrastar por anos, como já aconteceu com uma amiga minha. Então, prepare-se:
  1. O primeiro passo é descobrir o motivo. Desconfortos podem vir da temperatura - quente ou frio demais, do colchão da criança que pode estar desgastado, de algum barulho que esteja provocando este despertar noturno.
  2. Cuidar para que a alimentação antes de dormir não seja nem pesada e nem escassa que propicie a criança acordar em busca de um lanchinho.
  3. Se o tempo é de calor, talvez um banho morno ajude a preparar o corpo para uma boa noite de sono, retirando o suor e relaxando os músculos.
  4. Com os canais infantis funcionando sem parar, preste atenção qual é o último desenho animado que seu filho assiste antes de dormir. Dê preferência a programas mais calmos e já deixe o volume abaixado, reduzindo também a iluminação da sala.
  5. Não aceitar receber a criança na cama. Esse é o mais difícil para os pais que ficam com pena dos filhos e, ao mesmo tempo, estão tão cansados que acaba sendo a atitude mais fácil na hora. É preciso reunir forças, levar a criança de volta à cama e, se preciso, esperar sentada em uma poltrona ou em colchonete no chão até que ele volte a dormir, mostrando claramente que a regra é cada um na sua cama.
  6. Se o motivo dos problemas noturnos for medo, é mais complicado. O medo do desconhecido é algo que atinge pessoas de todas as idades, todos nós temos medo de algo e superar este sentimento é sempre um desafio. Costumamos fazer pouco caso do medo das crianças, porque são os que já superamos, mas é preciso respeitar a fase em que estão, quando o escuro esconde monstros e fantasmas. Neste caso, uma luzinha indireta é de grande ajuda, mas o maior trunfo é criar um amuleto anti-monstros. Pode ser uma oração, a garantia da presença do anjo da guarda ou de um boneco de super-herói ao lado do travesseiro. Algo em que ele possa se apoiar para ir, aos poucos, exercitando seu próprio autocontrole.
O importante é não deixar se prolongar e resolver o problema para que a família toda volte a ter uma boa noite!