Agora, é para valer. O temível "para casa" do segundo período tem a frequência de três vezes por semana e não basta só colorir desenhos, não! Tem que escrever letras e números. Sei que os pais cujos filhos já estão cursando disciplinas de biologia e matemática acham meus temores risíveis. O que o dever escolar de uma criança de 5 anos pode ter de complicado? Fórmulas químicas ou conhecimentos avançados de física? Tudo bem, eu admito, que se eu tivesse que auxiliar minha filha em matérias cujas lembranças estão tão longínquas em minha memória, eu também estaria em apuros. Para ser vergonhosamente sincera, eu não sei mais de cor quanto é 7 vezes 8 nem tenho a menor ideia do que são mitocôndrias. Mas, há um grande desafio no "para casa" das crianças - elas mesmas e sua vontade de brincar só mais um pouquinho.
É só chamar para fazer o dever para começar a ladainha. "Mãe, justo agora que eu montei a casinha? Hoje eu não estou com vontade. Mas, vai começar os Backyardigans agora, mãe!" Argumentos não faltam para procrastinar a tarefa mais cinco minutos, depois mais 20 e por aí vai.
Se bater de frente, os efeitos podem ser devastadores. Usar a força para sentar o menino na cadeira ou xingar podem fazer a criança tomar verdadeira birra dessa tarefa que deve ser tornar uma rotina comum que o acompanhará por toda a vida escolar.
Mas, se bater de lado, aceitar adiar ou deixar para lá, com certeza também passa a ideia de que para casa não é uma obrigação. E é uma obrigação sim.
Meus pais me ensinaram isso desde pequena e não fiquei traumatizada, muito pelo contrário, me deu a única disciplina que funcionou na minha vida, a de levar os estudos como minha responsabilidade e o entendimento de que passar de ano era minha obrigação.
Não fui a primeira da classe mas nunca fiquei nem em recuperação.
Por isso, não tive dúvidas. Quando minha filha se recusou a fazer o para casa, abaixei-me, olhei-a nos olhos e disse:
- Filha, você não precisa fazer nada se não quiser. Só que, quem faz o dever aprende a ler e pode ler todos os livros e revistinhas em quadrinhos que quiser. Quem estuda, vai para a faculdade ser o que quiser. Você não quer isso?
- Não mamãe.
(Puxa! Não contava com essa... Ela nem sabe o que é faculdade, tem que ser algo que ela entenda. Já sei! )
- Se não fizer o para casa, não tem joguinho no computador.
- Abre o caderno aí, mãe.
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