terça-feira, 25 de novembro de 2014

Mágica

A coisa mais vívida de minha infância era meu desejo de
aprender a ler. Nunca mais desejei tanto algo quanto desejei aprender aquela mágica de decodificar aqueles pequenos desenhos, organizados um ao lado do outro. O que diriam os livros, as placas, as revistas? Eu era surda e ansiava pela magia de ouvir os sons que lesse um dia. Me esforcei tanto que, aos seis anos estava lendo, coisa que na época era muito rara.
Hoje, as crianças leem aos cinco.
Minha emoção em ser capaz de ler minha primeira frase, “A casa fica no bosque”, só não foi maior do que quando ouvi minha filha dizer “gato”. Olhei de supetão e vi que ela repetia a palavra grafada na capa de um livro. Resolvi testá-la: “O que foi mesmo, filha?”. Decidida, ela apontou para o texto: “Gato”, simples assim, como se uma varinha de condão tivesse tocado sua cabecinha – plim, agora você sabe ler.
Lembrei-me de todo o tempo em que passamos sobre o tapete de EVA colorido, lendo em cada quadrado, uma letra do alfabeto. Recordei a primeira palavra que ela escreveu, que foi seu próprio nome, mais desenhando do que entendendo cada letra. Agora, tudo ficava diferente.
Susto mesmo foi no dia em que ela repetiu com meu marido a exata cena que vivi com meu pai há anos. No momento em que meu marido arrancou o carro no sinal verde, minha filha reclamou no banco de trás. “Ô, pai, eu ainda não tinha acabado de ler a placa!”.

Hoje, a mágica está quase completa, em breve minha filha lerá sozinha todos os seus mais de 200 livrinhos. Pois, uma outra mágica nos une, a magia do prazer da leitura. Desde bem pequena, ela pegava os livros e dizia: “Mamãe, vamos brincar de ler?”. 

domingo, 16 de novembro de 2014

Um choro na noite

Sempre ouço uma criança chorando ao longe no silêncio da noite. O choro não vem sempre do mesmo lugar, o que me faz pensar em quem são elas, essas crianças chorando ao longe. E pouca coisa gela mais meu coração que berros de criança gritando, dizendo palavras emboladas que tento desesperadamente decifrar. Será uma birra, apenas? Será um pedido de socorro?
Por que motivo choram essas vozinhas no escuro? Elas fogem pela janela de um dos prédios ao lado do meu, mas o som emitido no silêncio da noite nos engana. Acho que vem daquela janela. Não, talvez seja do edifício atrás desse.
Deito-me ouvindo o choro de uma criança ao longe. Ela pede alguma coisa, mas eu não posso ajudar. Nem sei onde ela está.
Por fim, durmo o sono dos covardes, fechando os olhos com força, tampando os ouvidos, segurando as lágrimas nos meus olhos.