sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Astronauta ou detetive?

- Mãe, antes, eu era menina pequena. Agora, eu sou menina média e vou até na escolinha. Quando eu for menina grande, vou para a faculdade.
- E você por acaso sabe o que é faculdade, Laura?
- Sei, sim. é a escola de gente grande estudar.
- Parabéns, filha! Você vai adorar a faculdade, sabe por que? Faculdade é a escola na qual gente escolhe o que quer estudar. Você é quem escolhe a matéria. Não é legal?
Os olhinhos da menina brilharam:
- Já sei o que eu vou escolher. Eu quero estudar... As estrelas!
- Que lindo, amor! Você vai ser astrônoma.
Ela me olha espandada:
- Não, eu vou ser astronauta. É isso o que eu quero ser quando eu crescer. Ou vou ser astronauta ou detetive!

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Qual a hora certa para explicar a morte para seus filhos?

Tratamos nossos filhos pequenos como se fossem bebês, pensando que, em cabecinha de criança só entram nuvens azuis e balões cor de rosa. Daí a surpresa total quando da boquinha deles sai uma pergunta que nos desconcerta e põe em dúvida nossa decisão de não tocar em certos assuntos.

Comigo, a surpresa aconteceu durante o momento leitura que promovo todas as noites com minha filha de 4 anos. Nessa noite, diferente das histórias infantis, ela veio carregando um livro mais grosso; era uma antiga enciclopédia, aquele artefato pré-histórico que se usava para fazer pesquisas escolares antes do Google, que ela havia encontrado jogada num armário. Nas primeiras páginas, a história do antigo Egito era apresentada com imagens de pirâmides e sarcófagos moldados à imagem dos faraós. Expliquei as ilustrações da melhor forma possível, quando ela apontou para um desenho onde os escravos enfaixavam um corpo.

- O que é isso, mamãe?
- É uma múmia, tipo aquela do desenho dos monstrinhos.
- Mas, múmia é pessoa? Como ele vai respirar?
- Não, filha, eles enfaixavam as pessoas que morriam, que iam para o céu.
- Por que a pessoa morria?
- É normal, meu amor. Todo mundo morre.

Nesse instante, minha filhinha ergueu os olhos assustada e perguntou com a voz mais doce do mundo:

- E eu mamãe? Eu também? Vou morrer também?

Não consegui responder, acho que não conseguia sequer me mexer, mas ela continuava a perguntar seu inocente: “E eu?”. Com a voz tremendo, expliquei que ela não precisava se preocupar com isso, pois era algo em que só deveria pensar daqui há muitos e muitos anos. Foi por pouco que não chorei, pois até aquele exato momento, nem eu mesma ousava lembrar que a minha filha, meu maior tesouro, é tão mortal quanto os faraós. A presença daquela ideia me perturbava, e eu sou uma mulher madura. Imagine na cabeça dela? Afinal, qual é o momento exato para se falar da morte com nossos filhos?

Esse não havia sido o primeiro contato dela com a noção de que somos passageiros. Na sua curta vidinha, minha criança conheceu a dor da partida através dos bisavós; um morreu logo após o outro porque a “bisa” não via mais sentido em ficar por aqui sem o seu velho príncipe encantado. Mas havia sido algo distante, que só se tornou concreto nas visitas à casa antiga dos bisavós, onde agora restavam apenas os tios e os avós. Aprendia a morte pela ausência, sem a visão triste que nós adultos temos do velório, o horrendo bicho papão que tratamos de enfeitar com o máximo de flores possíveis.

Até que um dia, morreu seu passarinho de estimação e meu marido achou que seria uma boa oportunidade para uma lição sobre a vida, permitindo que nossa filha visse a morte apresentada pela mão do pai, onde jazia o corpinho rijo coberto de penas amarelas. Ela o olhou bem de perto enquanto ouvia seu pai dizendo que Buba estava morto e seria enterrado no jardim. A menina deu uma risada e voltou a brincar com a boneca. Decepcionado, meu marido, que esperava ter que acalentar a filha aos prantos, foi preparar o funeral do bichinho. Daí a uns minutos, ela apareceu correndo no jardim, procurando o pássaro. Ficou olhando o montinho de areia, atônita, e por fim entendeu:

- O Buba foi ficar com o biso a e bisa, pai?

É uma preocupação torturante essa, sobre decidir o momento certo de permitir que nossos filhotinhos tenham contato com as dores do mundo; de preferência escolheríamos que eles só sofressem depois dos 45 anos de idade. Mas, as coisas podem ser mais simples do que imaginamos. A hora certa para se falar de morte não existe, ela acontece para cada criança de acordo com suas experiências. O importante, é jamais fugir da pergunta, pois quando a criança chega a formular um questionamento, ela já está pronta para ouvir uma resposta sobre o assunto. Claro que pode ser uma resposta suavizada, sem muitos detalhes, mas sempre verdadeira. Não precisamos ter medo pois, eles entenderão e aceitarão a morte dentro da suas possibilidades e sofrerão de acordo com o tamanho de seus coraçõezinhos. Ou seja, mais ou menos como eu e você.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Coisas de Laurinha

TOC, TOC, TOC!

- Mãe, vem jogar bola comigo.
- Laura, espera que eu estou no banheiro, filha.
- Mãe. Mãe. Mãe. Ô mãe...
- Espera um pouco filha.
- Vem jogar bola, mãe!
- Eu já falei, Laura! Você tem que aprender a esperar, ouviu? ESPERA!
- Ih, mãe! Eu tenho ESPERANÇA sim. O que eu não tenho é PACIÊNCIA.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Filho único – a tendência da nova família?

Mimado, solitário e sufocado por excesso de atenção – seu filho único não precisa ser assim.


A família brasileira diminuiu de tamanho, foi o que comprovou o Censo de 2010 onde a média da prole bateu seu menor índice – 1,9 filhos por mulher. Basta lembrar-se da nossa própria infância, quando se aprendia em casa a difícil arte de dividir. Na minha família, éramos quatro meninas dividindo o mesmo quarto, os mesmos brinquedos e a atenção dos pais. Apesar das brigas, cabelos puxados e outras pirraças, dividir a infância com minhas irmãs tornou essa fase uma das mais ricas que já vivi. Hoje, minhas irmãs são minhas melhores amigas com quem eu divido problemas, alegrias e, às vezes, dívidas. Penso em como seria solitário não ter a presença dessas mulheres em todas as etapas da minha vida

Por esse motivo, muitas vezes me sinto incerta sobre a decisão que tomei de ser mãe de filha única. Condenei minha filha à solidão? Essa sempre foi minha maior preocupação, agravada constantemente pelos pedidos insistentes da minha menininha para que desse a ela um irmãozinho. O desejo dela por esse companheiro era tão premente, que me levou às lágrimas mais de uma vez. Se já é difícil dizer não a nossos filhos quando eles nos pedem um chocolate fora de hora, imagine o aperto no peito ao negarmos a eles o nascimento de um irmão! Acredite isso fornece culpa o suficiente para você passar noites em claro se sentindo a mais cruel das mulheres.

Cada uma das mães que tomam essa decisão tem seus motivos. Meu principal motivo foi o desejo de poder oferecer à minha filha a bicicleta, o curso de inglês e a festa de 15 anos que eu não pude ter porque o orçamento precisava ser dividido entre quatro irmãs. Não sei se foi a melhor decisão, mas essa é a escolha com a qual toda uma geração de filhos únicos terá que aprender a conviver sem se tornarem um bando de mimados fracassados. Afinal, esse também é um dos temores dos pais de filhos únicos, a possibilidade de que tantos cuidados, tanta atenção, tanto amor e privilégios direcionados para uma única pessoa a despoje do espírito de luta, da força de vontade, e semeie um campo fértil para a preguiça e a auto-indulgência.

Então, se o filho único é a nova tendência do planeta, como evitar esse possível desastre? Este é o plano de ação que estou aplicando na educação da minha filha e muitos resultados positivos já podem ser notados mesmo aos 5 anos de idade.

  1. Dê responsabilidades. Minha avó já dizia: “Trabalho de criança é pouco, quem desperdiça é louco”. No mundo do politicamente correto, essa frase causaria protestos, mas não se trata de fazer uma criança descascar castanha de caju aos dois anos de idade, como vemos na triste realidade de algumas localidades no Brasil. O filho deve ter o dever de guardar os brinquedos, catar papel picado do chão ou qualquer outra sujeira que ele mesmo provocar. À medida que cresce, crescerão as tarefas. As mães reclamam que as crianças deixam tudo bagunçado, mas isso é normal se você desconhece o trabalho que dá limpar e arrumar.
  2. Cobrar respeito. Gritou com a avó? Castigo. Xingou a babá? Castigo. Bateu no coleguinha? Castigo. Desrespeito com qualquer pessoa deve ser considerado falta grave para que ele perceba que ser filho único não quer dizer que ele é o único que importa.
  3. Ensine seu filho a se divertir sozinho. É claro que a socialização é muito importante, mas pense em como essa lição é valiosa, pois até na vida adulta precisamos entender que não podemos depender do outro para sermos felizes. A felicidade, quem faz somos nós mesmos.
  4. Lembre sempre a si mesmo o que é um direito do seu filho e o que é um privilégio. Boas escolas, viagens, lazer, cursos, plano de saúde, tudo isso é um direito do seu filho. Mas, e aquela bike ultra-moderna? E o tablete de última geração? Sempre pergunte a si mesmo: isso é um direito ou um privilégio? Se é um privilégio, ele deve merecê-lo. Defina metas, como atingir uma nota x em tal matéria para ganhar a bicicleta.
  5. Os primos são os novos irmãos do filho único. Incentive a convivência com os primos. Cada uma das minhas irmãs teve também um único filho, bem como meus cunhados. A ligação com esses primos serão os relacionamentos mais próximos da fraternidade que minha filha conhecerá, por isso é bom que seja incentivada uma atitude de proteção e colaboração entre eles, para que cresçam sabendo que podem contar uns com os outros, como eu posso contar com minhas irmãs para sempre.