Mimado, solitário e sufocado por excesso de atenção – seu filho único não precisa ser assim.
A
família brasileira diminuiu de tamanho, foi o que comprovou o Censo de 2010
onde a média da prole bateu seu menor índice – 1,9 filhos por mulher. Basta lembrar-se
da nossa própria infância, quando se aprendia em casa a difícil arte de
dividir. Na minha família, éramos quatro meninas dividindo o mesmo quarto, os
mesmos brinquedos e a atenção dos pais. Apesar das brigas, cabelos puxados e
outras pirraças, dividir a infância com minhas irmãs tornou essa fase uma das
mais ricas que já vivi. Hoje, minhas irmãs são minhas melhores amigas com quem
eu divido problemas, alegrias e, às vezes, dívidas. Penso em como seria
solitário não ter a presença dessas mulheres em todas as etapas da minha vida
Por
esse motivo, muitas vezes me sinto incerta sobre a decisão que tomei de ser mãe
de filha única. Condenei minha filha à solidão? Essa sempre foi minha maior
preocupação, agravada constantemente pelos pedidos insistentes da minha
menininha para que desse a ela um irmãozinho. O desejo dela por esse
companheiro era tão premente, que me levou às lágrimas mais de uma vez. Se já é
difícil dizer não a nossos filhos quando eles nos pedem um chocolate fora de
hora, imagine o aperto no peito ao negarmos a eles o nascimento de um irmão! Acredite
isso fornece culpa o suficiente para você passar noites em claro se sentindo a
mais cruel das mulheres.
Cada
uma das mães que tomam essa decisão tem seus motivos. Meu principal motivo foi
o desejo de poder oferecer à minha filha a bicicleta, o curso de inglês e a
festa de 15 anos que eu não pude ter porque o orçamento precisava ser dividido
entre quatro irmãs. Não sei se foi a melhor decisão, mas essa é a escolha com a
qual toda uma geração de filhos únicos terá que aprender a conviver sem se
tornarem um bando de mimados fracassados. Afinal, esse também é um dos temores
dos pais de filhos únicos, a possibilidade de que tantos cuidados, tanta
atenção, tanto amor e privilégios direcionados para uma única pessoa a despoje
do espírito de luta, da força de vontade, e semeie um campo fértil para a
preguiça e a auto-indulgência.
Então,
se o filho único é a nova tendência do planeta, como evitar esse possível desastre?
Este é o plano de ação que estou aplicando na educação da minha filha e muitos
resultados positivos já podem ser notados mesmo aos 5 anos de idade.
- Dê responsabilidades. Minha avó já dizia: “Trabalho de criança é pouco, quem desperdiça é louco”. No mundo do politicamente correto, essa frase causaria protestos, mas não se trata de fazer uma criança descascar castanha de caju aos dois anos de idade, como vemos na triste realidade de algumas localidades no Brasil. O filho deve ter o dever de guardar os brinquedos, catar papel picado do chão ou qualquer outra sujeira que ele mesmo provocar. À medida que cresce, crescerão as tarefas. As mães reclamam que as crianças deixam tudo bagunçado, mas isso é normal se você desconhece o trabalho que dá limpar e arrumar.
- Cobrar respeito. Gritou com a avó? Castigo. Xingou a babá? Castigo. Bateu no coleguinha? Castigo. Desrespeito com qualquer pessoa deve ser considerado falta grave para que ele perceba que ser filho único não quer dizer que ele é o único que importa.
- Ensine seu filho a se divertir sozinho. É claro que a socialização é muito importante, mas pense em como essa lição é valiosa, pois até na vida adulta precisamos entender que não podemos depender do outro para sermos felizes. A felicidade, quem faz somos nós mesmos.
- Lembre sempre a si mesmo o que é um direito do seu filho e o que é um privilégio. Boas escolas, viagens, lazer, cursos, plano de saúde, tudo isso é um direito do seu filho. Mas, e aquela bike ultra-moderna? E o tablete de última geração? Sempre pergunte a si mesmo: isso é um direito ou um privilégio? Se é um privilégio, ele deve merecê-lo. Defina metas, como atingir uma nota x em tal matéria para ganhar a bicicleta.
- Os primos são os novos irmãos do filho único. Incentive a convivência com os primos. Cada uma das minhas irmãs teve também um único filho, bem como meus cunhados. A ligação com esses primos serão os relacionamentos mais próximos da fraternidade que minha filha conhecerá, por isso é bom que seja incentivada uma atitude de proteção e colaboração entre eles, para que cresçam sabendo que podem contar uns com os outros, como eu posso contar com minhas irmãs para sempre.
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