Tratamos nossos filhos pequenos como se fossem bebês,
pensando que, em cabecinha de criança só entram nuvens azuis e balões cor de
rosa. Daí a surpresa total quando da boquinha deles sai uma pergunta que nos
desconcerta e põe em dúvida nossa decisão de não tocar em certos assuntos.
Comigo, a surpresa aconteceu durante o momento leitura que
promovo todas as noites com minha filha de 4 anos. Nessa noite, diferente das
histórias infantis, ela veio carregando um livro mais grosso; era uma antiga
enciclopédia, aquele artefato pré-histórico que se usava para fazer pesquisas
escolares antes do Google, que ela havia encontrado jogada num armário. Nas
primeiras páginas, a história do antigo Egito era apresentada com imagens de
pirâmides e sarcófagos moldados à imagem dos faraós. Expliquei as ilustrações
da melhor forma possível, quando ela apontou para um desenho onde os escravos
enfaixavam um corpo.
- O que é isso, mamãe?
- É uma múmia, tipo aquela do desenho dos monstrinhos.
- Mas, múmia é pessoa? Como ele vai respirar?
- Não, filha, eles enfaixavam as pessoas que morriam, que
iam para o céu.
- Por que a pessoa morria?
- É normal, meu amor. Todo mundo morre.
Nesse instante, minha filhinha ergueu os olhos assustada e
perguntou com a voz mais doce do mundo:
- E eu mamãe? Eu também? Vou morrer também?
Não consegui responder, acho que não conseguia sequer me
mexer, mas ela continuava a perguntar seu inocente: “E eu?”. Com a voz
tremendo, expliquei que ela não precisava se preocupar com isso, pois era algo
em que só deveria pensar daqui há muitos e muitos anos. Foi por pouco que não
chorei, pois até aquele exato momento, nem eu mesma ousava lembrar que a minha
filha, meu maior tesouro, é tão mortal quanto os faraós. A presença daquela
ideia me perturbava, e eu sou uma mulher madura. Imagine na cabeça dela?
Afinal, qual é o momento exato para se falar da morte com nossos filhos?
Esse não havia sido o primeiro contato dela com a noção de
que somos passageiros. Na sua curta vidinha, minha criança conheceu a dor da
partida através dos bisavós; um morreu logo após o outro porque a “bisa” não
via mais sentido em ficar por aqui sem o seu velho príncipe encantado. Mas
havia sido algo distante, que só se tornou concreto nas visitas à casa antiga
dos bisavós, onde agora restavam apenas os tios e os avós. Aprendia a morte
pela ausência, sem a visão triste que nós adultos temos do velório, o horrendo
bicho papão que tratamos de enfeitar com o máximo de flores possíveis.
Até que um dia, morreu seu passarinho de estimação e meu
marido achou que seria uma boa oportunidade para uma lição sobre a vida,
permitindo que nossa filha visse a morte apresentada pela mão do pai, onde
jazia o corpinho rijo coberto de penas amarelas. Ela o olhou bem de perto
enquanto ouvia seu pai dizendo que Buba estava morto e seria enterrado no
jardim. A menina deu uma risada e voltou a brincar com a boneca. Decepcionado,
meu marido, que esperava ter que acalentar a filha aos prantos, foi preparar o funeral
do bichinho. Daí a uns minutos, ela apareceu correndo no jardim, procurando o
pássaro. Ficou olhando o montinho de areia, atônita, e por fim entendeu:
- O Buba foi ficar com o biso a e bisa, pai?
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