terça-feira, 26 de novembro de 2013

Qual a hora certa para explicar a morte para seus filhos?

Tratamos nossos filhos pequenos como se fossem bebês, pensando que, em cabecinha de criança só entram nuvens azuis e balões cor de rosa. Daí a surpresa total quando da boquinha deles sai uma pergunta que nos desconcerta e põe em dúvida nossa decisão de não tocar em certos assuntos.

Comigo, a surpresa aconteceu durante o momento leitura que promovo todas as noites com minha filha de 4 anos. Nessa noite, diferente das histórias infantis, ela veio carregando um livro mais grosso; era uma antiga enciclopédia, aquele artefato pré-histórico que se usava para fazer pesquisas escolares antes do Google, que ela havia encontrado jogada num armário. Nas primeiras páginas, a história do antigo Egito era apresentada com imagens de pirâmides e sarcófagos moldados à imagem dos faraós. Expliquei as ilustrações da melhor forma possível, quando ela apontou para um desenho onde os escravos enfaixavam um corpo.

- O que é isso, mamãe?
- É uma múmia, tipo aquela do desenho dos monstrinhos.
- Mas, múmia é pessoa? Como ele vai respirar?
- Não, filha, eles enfaixavam as pessoas que morriam, que iam para o céu.
- Por que a pessoa morria?
- É normal, meu amor. Todo mundo morre.

Nesse instante, minha filhinha ergueu os olhos assustada e perguntou com a voz mais doce do mundo:

- E eu mamãe? Eu também? Vou morrer também?

Não consegui responder, acho que não conseguia sequer me mexer, mas ela continuava a perguntar seu inocente: “E eu?”. Com a voz tremendo, expliquei que ela não precisava se preocupar com isso, pois era algo em que só deveria pensar daqui há muitos e muitos anos. Foi por pouco que não chorei, pois até aquele exato momento, nem eu mesma ousava lembrar que a minha filha, meu maior tesouro, é tão mortal quanto os faraós. A presença daquela ideia me perturbava, e eu sou uma mulher madura. Imagine na cabeça dela? Afinal, qual é o momento exato para se falar da morte com nossos filhos?

Esse não havia sido o primeiro contato dela com a noção de que somos passageiros. Na sua curta vidinha, minha criança conheceu a dor da partida através dos bisavós; um morreu logo após o outro porque a “bisa” não via mais sentido em ficar por aqui sem o seu velho príncipe encantado. Mas havia sido algo distante, que só se tornou concreto nas visitas à casa antiga dos bisavós, onde agora restavam apenas os tios e os avós. Aprendia a morte pela ausência, sem a visão triste que nós adultos temos do velório, o horrendo bicho papão que tratamos de enfeitar com o máximo de flores possíveis.

Até que um dia, morreu seu passarinho de estimação e meu marido achou que seria uma boa oportunidade para uma lição sobre a vida, permitindo que nossa filha visse a morte apresentada pela mão do pai, onde jazia o corpinho rijo coberto de penas amarelas. Ela o olhou bem de perto enquanto ouvia seu pai dizendo que Buba estava morto e seria enterrado no jardim. A menina deu uma risada e voltou a brincar com a boneca. Decepcionado, meu marido, que esperava ter que acalentar a filha aos prantos, foi preparar o funeral do bichinho. Daí a uns minutos, ela apareceu correndo no jardim, procurando o pássaro. Ficou olhando o montinho de areia, atônita, e por fim entendeu:

- O Buba foi ficar com o biso a e bisa, pai?

É uma preocupação torturante essa, sobre decidir o momento certo de permitir que nossos filhotinhos tenham contato com as dores do mundo; de preferência escolheríamos que eles só sofressem depois dos 45 anos de idade. Mas, as coisas podem ser mais simples do que imaginamos. A hora certa para se falar de morte não existe, ela acontece para cada criança de acordo com suas experiências. O importante, é jamais fugir da pergunta, pois quando a criança chega a formular um questionamento, ela já está pronta para ouvir uma resposta sobre o assunto. Claro que pode ser uma resposta suavizada, sem muitos detalhes, mas sempre verdadeira. Não precisamos ter medo pois, eles entenderão e aceitarão a morte dentro da suas possibilidades e sofrerão de acordo com o tamanho de seus coraçõezinhos. Ou seja, mais ou menos como eu e você.

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