terça-feira, 18 de setembro de 2018

Low Carb do capeta

Não tenho tempo nem energia pra contar minha vida aqui agora, então você vai ter que contentar-se com isso. Dos 11 aos 49 anos só faço duas coisas na vida: emagreço e engordo. Por acaso, no momento, estou tentando abaixar o ponteiro da balança, o que não significa em absoluto que estou de dieta, que vou levar isso a sério, que acredito mesmo ou até que queira ficar finalmente magra a essa altura da minha vida. Vamos ser sinceras, aos 49 anos você não vai emagrecer e ficar tonificada o suficiente para posar para a Playboy, certo? Agora, suas prioridades são bem mais modestas. Que tal perder peso o suficiente para o joelho parar de ranger?

Não, em hipótese alguma sinta-se constrangido ou infeliz. Acredite, para mim, a perspectiva de ter potencial de atravessar a rua já está ótimo. Vamos ao cardápio do dia!


  1. Manhã - omelete de um ovo, café/adoçante e queijo musarela.
  2. lanche - amêndoas
  3. Almoço - peixe grelhado e salada. (com minha irmã Cláudia)
  4. lanche 1 iogurte light, um pedaço de queijo parmesão e 1/2 lata de atum.
Enfim, é a parte fácil. Agora, vem o pesadelo da noite. Quando todas as bruxas dos pudins e as malévolas dos bolinhos de queijo saem para assombrar. Durma bem.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Quem manda na sua barriga?

A velha discussão sobre cesariana é novamente conduzida com desrespeito às mulheres e seu direito para decidir sobre o próprio corpo.

Cesária ou parto normal? Só essa pergunta já deixa bem claro: cesariana não é uma coisa normal, ou seja, é anormal. E assim o tema foi tratado hoje de manhã numa reportagem da rádio Itatiaia de BH, onde a repórter Camila Dias promoveu uma verdadeira caça às bruxas na maternidade Otaviano Neves, inquirindo veementemente as gestantes e mães presentes se elas tinham feito o parto normal ou cesária.
O tom de voz da repórter chega ao clímax da ironia e cinismo quando ela alega que tem mulher que pega o resultado de sangue e já diz que quer cesária. Como se uma mulher adulta e dona do próprio nariz não tivesse direito sim de escolher o que deseja fazer com seu corpo.
Vamos separar as coisas, o alto número de cirurgias no Brasil precisa ser reduzido e o parto normal deve sempre ser a primeira escolha. Entretanto, se alguém deve ser considerado culpado nesta situação, é o médico, que induz pacientes a fazerem a cesariana por comodidade. A mulher que escolhe a cesariana, por medo da dor, não é culpada de nada. Está exercendo o seu direito de decidir sobre seu corpo, sua vida.
Camila Dias segue nas reportagens tentando “flagrar” alguma desavisada. Quando uma mulher informa que fez três cesarianas e seu quarto filho também nasceria pela cirurgia, a repórter dispara “Por quê?”. A mulher informa que não teve passagem (dilatação). Mesmo assim, como que desconfiando, a repórter repete “Não foi por escolha, não?”. A coitada repete que não teve passagem.
Outra entrevistada explicou o motivo de sua cesariana: o bebê não encaixou, não houve dilatação e a bolsa estourou. Deu para entender, né? Caso de urgência, como foi o meu. Mesmo assim, a moça teve que responder a mais uma pergunta: “Vocês soube no dia ou já estava decidido?”. A mulher agora tem bola de cristal, já decide com meses de antecedência que sua bolsa vai estourar e não haverá dilatação.
Eu decidi pelo parto normal e Deus decidiu que eu passaria por uma cesariana. Se milha filha ficou “drogada” pela anestesia que eu tomei, ela disfarçou muito bem, saiu de mim berrando a plenos pulmões. Foi levada para mim horas depois e estava tranquila e saudável. Hoje, ela tem seis anos e nenhum traço de que ficou traumatizada pela forma como nasceu. Foram cortadas sete camadas de pele, músculos e sei lá mais o que, e no dia seguinte eu estava andando pelo quarto normalmente, sem qualquer dor.
Tenho uma prima que teve complicações durante seu parto normal, mas o médico insistiu em fazer a “coisa certa”, e a tal coisa levou mais que 15 horas. Quando finalmente o bebê saiu roxo, constatou-se falta de ar no cérebro do bebê, por um breve período, devido à demora e problemas do parto.
Só para as pessoas entenderem que existem boas cesarianas e partos normais péssimos também. Mas, acima de tudo, que uma mulher deve ser respeitada no seu direito de escolha sobre si mesma.  


terça-feira, 25 de novembro de 2014

Mágica

A coisa mais vívida de minha infância era meu desejo de
aprender a ler. Nunca mais desejei tanto algo quanto desejei aprender aquela mágica de decodificar aqueles pequenos desenhos, organizados um ao lado do outro. O que diriam os livros, as placas, as revistas? Eu era surda e ansiava pela magia de ouvir os sons que lesse um dia. Me esforcei tanto que, aos seis anos estava lendo, coisa que na época era muito rara.
Hoje, as crianças leem aos cinco.
Minha emoção em ser capaz de ler minha primeira frase, “A casa fica no bosque”, só não foi maior do que quando ouvi minha filha dizer “gato”. Olhei de supetão e vi que ela repetia a palavra grafada na capa de um livro. Resolvi testá-la: “O que foi mesmo, filha?”. Decidida, ela apontou para o texto: “Gato”, simples assim, como se uma varinha de condão tivesse tocado sua cabecinha – plim, agora você sabe ler.
Lembrei-me de todo o tempo em que passamos sobre o tapete de EVA colorido, lendo em cada quadrado, uma letra do alfabeto. Recordei a primeira palavra que ela escreveu, que foi seu próprio nome, mais desenhando do que entendendo cada letra. Agora, tudo ficava diferente.
Susto mesmo foi no dia em que ela repetiu com meu marido a exata cena que vivi com meu pai há anos. No momento em que meu marido arrancou o carro no sinal verde, minha filha reclamou no banco de trás. “Ô, pai, eu ainda não tinha acabado de ler a placa!”.

Hoje, a mágica está quase completa, em breve minha filha lerá sozinha todos os seus mais de 200 livrinhos. Pois, uma outra mágica nos une, a magia do prazer da leitura. Desde bem pequena, ela pegava os livros e dizia: “Mamãe, vamos brincar de ler?”. 

domingo, 16 de novembro de 2014

Um choro na noite

Sempre ouço uma criança chorando ao longe no silêncio da noite. O choro não vem sempre do mesmo lugar, o que me faz pensar em quem são elas, essas crianças chorando ao longe. E pouca coisa gela mais meu coração que berros de criança gritando, dizendo palavras emboladas que tento desesperadamente decifrar. Será uma birra, apenas? Será um pedido de socorro?
Por que motivo choram essas vozinhas no escuro? Elas fogem pela janela de um dos prédios ao lado do meu, mas o som emitido no silêncio da noite nos engana. Acho que vem daquela janela. Não, talvez seja do edifício atrás desse.
Deito-me ouvindo o choro de uma criança ao longe. Ela pede alguma coisa, mas eu não posso ajudar. Nem sei onde ela está.
Por fim, durmo o sono dos covardes, fechando os olhos com força, tampando os ouvidos, segurando as lágrimas nos meus olhos.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Castelos no ar

A princesa, com apenas quatro anos, corre pelo imenso palácio de concreto. Imponente, amplo, gigantesco até. Ela é a princesa do palácio e pode correr o quanto quiser. Os escravos que a acompanhem, se não quiserem perde-la de vista. Só por diversão, sobe e desce, bailando, a majestosa rampa de três voltas atapetada de verde.

Mas, ao badalar das 22h15, a brincadeira termina. É hora de parar a correria no castelo dos Confins e entrar na sala de embarque.

Não importa o cenário onde minha filha está. O aeroporto vira um castelo e, daqui a pouco, o avião pode virar uma nave espacial para marte. É por isso que gente grande fica tão entediada. Não nos é possível se divertir porque está preso no aeroporto há duas horas. Mas, para eles, tudo é possível. Nunca mais sua vida foi tão divertida quanto aos quatro anos.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Solidão pequena

Ontem à noite, fiquei olhando Laura brincando sozinha na área do apartamento. Ela estava envolvida em alguma história emocionante, na qual fazia o papel de todos os personagens. Ela perguntava e a outra “ela” respondia. Minha filha dava voltas na pequena área, mas percebia-se que ela na verdade não andava por ali. Em sua fantasia, podia estar em um castelo, uma montanha, um calabouço. Senti uma imensa tristeza ao ver a infância da minha menina passada na mais completa solidão. Ninguém para dividir suas bonecas, seus livrinhos, ninguém para interpretar a princesa ou o dragão.

Há muito me sinto culpada pela minha escolha de ter filha única. Mas, que novidade há nisso? Ser mãe é sentir-se culpada por tudo, mas a situação se agravou com o fato de não existir outra criança num raio de 500 quilômetros! Ninguém mais tem filhos, não há crianças no edifício onde moro, nem na residência do lado, nem na da frente. Não há crianças em lugar nenhum. Cheguei a pensar em abrir um serviço de aluguel de pequeninos. Aluga-se criança para brincar com seu filho único. Promoção da semana: pague um menino de cinco anos e leve grátis, por três horas, mais duas crianças!
Fiquei obcecada pela ideia de arranjar um companheirinho a todo custo. Passei a frequentar todas as festas da escola, chegava perto das outras mães e tentava fazer amizade. Assim que tinha uma brecha, disparava: “Empresta-me sua filha que eu levo ela no parque e pago todas as despesas. Leve seu filho na minha casa, sirvo bolo de chocolate com refrigerante.” Depois de semanas de insistência, zero crianças alugadas. Fiquei ofendida, mas imagino que aquelas mães devem ter me achado um pouco psicótica, então tudo bem.

Eu sabia que parte de minha culpa era por lembrar-se de minha própria infância, com três irmãs, quatro vizinhas ao lado, uma melhor amiga na rua de baixo e mais de 10 primos nos finais de semana. Sempre havia uma criança por perto, era matéria prima abundante para construir casinhas de bonecas e mundos de faz de conta. Será que minha filha vai ser menos feliz, menos criativa e ter menor capacidade de interação por viver uma experiência tão diferente da minha? O que ela pode perder, além de lembranças que nunca terá, como as que eu tenho das brincadeiras no quintal de terra?
Mas, isso foi ontem. Hoje, eu tive um grande desapontamento, daqueles que apertam seu coração de um jeito que você o sente retorcer no seu peito. A dor quer sair de qualquer jeito e você pega o telefone, pronta para discar o número da melhor amiga. Neste momento, você lembra que não tem ninguém para quem ligar. Repassa um por um os nomes de todos os conhecidos em sua agenda mental - colegas de trabalho, antigos colegas de escola reencontrados no Facebook, sua ginecologista, a turma da hidroginástica e seus vizinhos. Nenhum deles é realmente um amigo. Não há uma única pessoa que se importe realmente com a dor no seu peito. Ninguém virá para brincar com você.

A sensação de não ter com quem falar é a mesma que a gente sente ao pular numa piscina muito funda. Estar só é asfixiante.


Penso em Laura e sua solidãozinha. Não quero concluir com tudo isso que, é melhor para ela se acostumar com o mundo frio e cruel e já chegar pronta no futuro sem amigos que a aguarda. Não quero ser tão amarga assim. Melhor pensar que, pelo menos ela crescerá segura de si, completa, bastando-se a si mesma. O que conseguir encontrar de amizade será lucro. Mas, se faltarem amigos, ela sempre poderá brincar sozinha e voltar a sorrir.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Cão & adoção

- Mãe, já que você não me dá um irmão, me dê ao menos um cachorro.
Como responder não a um apelo desses? Minha filha única acertou em cheio a flecha da culpa em meu coração de mãe. Não é que eu não goste de cachorros, pelo contrário. Tenho uma galeria de lembranças caninas da minha infância e adolescência que sempre me despertam um apertinho de saudade. Mas, agora moro em um apartamento e ter um cachorro significa lidar com o odor de urina e fezes em um espaço muito pequeno. Sem falar nos pelos grudados no sofá, dos latidos de madrugada e mais um monte de dificuldades. Resolvi enfrentar todas elas, começando pelo meu marido. Adotei uma nova tática, ao invés de dialogar (coisa que já estava fazendo há um mês) eu apenas avisando que já marcara para pegar um cachorro que fora colocado para adoção.
- Você sabe que eu não quero, vai sobrar para mim – Ele começou irritado.
- Eu vou cuidar. – garanti.
- Mas a Laura pediu um cão da raça Pug, que custa mais de mil reais.
- O que nos dá uma ótima oportunidade de ensinar à nossa filha que ela não deve gostar de um cachorro porque ele está na moda ou é bonito. Adotar é que é tudo de bom.
Mesmo determinada, confesso que fiquei insegura na hora da adoção. E se o cachorro fosse de comportamento agitado, comesse os brinquedos da Laura, destruísse minha vassoura, fizesse cocô no lugar errado e não soubesse se comportar nem obedecer? Pois o cachorro era tudo isso e mais um pouco, mas eu só descobriria a verdade duas semanas depois.
Laura se apaixonou perdidamente por Mutley, o que já era esperado. Mas, engraçado mesmo foi assistir meu marido se derretendo aos poucos pelo vira latinha. Quando chegamos a casa, ele decretou.
- Esse cão já foi abandonado duas vezes. Daqui, ele não sai mais.
Nas primeiras semanas, Mutley parecia assustado e confuso. Se eu me levantava do sofá e ia até a cozinha, ele levantava de um pulo e me seguia, olhando-me com os olhinhos arregalados. Parecia perguntar: “Aonde você vai? Vai voltar? Ou vai me abandonar?” Ele estremecia ao chegar perto do jornal para fazer xixi, aparentando ter sofrido algum mal trato por isso, pois ele chegou a segurar a urina por quase dois dias. Uivava e chorava desesperadamente ao ser deixado sozinho, mas depois parava.
Finalmente foi se acalmando e aí... Pronto! Mutley agora está à vontade. Rouba os brinquedos de Laura, já decapitou duas bonecas, não me obedece quando chamo e seu próximo plano é rasgar a guia da coleira novinha (já roeu metade).

Fico furiosa e aí ele chega perto de mim com aquelas orelhas negras caídas, abanando o rabo todo satisfeito. Está ganhando peso e brinca horas com minha filha. Se não dou atenção, ele morde meu pé e antes que eu tenha chance de ralhar com ele, corre até a área e volta com uma corda com a qual brincamos de cabo de guerra. Estou com dor nos joelhos de tanto brincar com minha filha de pegar o pequeno cachorrinho, ele roda todo o apartamento em um segundo. Enfim, agora minha vida está uma bagunça. Graças a Deus.