A coisa mais vívida de minha infância era meu desejo de
aprender
a ler. Nunca mais desejei tanto algo quanto desejei aprender aquela mágica de decodificar
aqueles pequenos desenhos, organizados um ao lado do outro. O que diriam os
livros, as placas, as revistas? Eu era surda e ansiava pela magia de ouvir os
sons que lesse um dia. Me esforcei tanto que, aos seis anos estava lendo, coisa
que na época era muito rara.
Hoje, as crianças leem aos cinco.
Minha emoção em ser capaz de ler minha primeira frase, “A
casa fica no bosque”, só não foi maior do que quando ouvi minha filha dizer “gato”.
Olhei de supetão e vi que ela repetia a palavra grafada na capa de um livro. Resolvi
testá-la: “O que foi mesmo, filha?”. Decidida, ela apontou para o texto: “Gato”,
simples assim, como se uma varinha de condão tivesse tocado sua cabecinha –
plim, agora você sabe ler.
Lembrei-me de todo o tempo em que passamos sobre o tapete de
EVA colorido, lendo em cada quadrado, uma letra do alfabeto. Recordei a primeira
palavra que ela escreveu, que foi seu próprio nome, mais desenhando do que
entendendo cada letra. Agora, tudo ficava diferente.
Susto mesmo foi no dia em que ela repetiu com meu marido a
exata cena que vivi com meu pai há anos. No momento em que meu marido arrancou
o carro no sinal verde, minha filha reclamou no banco de trás. “Ô, pai, eu
ainda não tinha acabado de ler a placa!”.
Hoje, a mágica está quase completa, em breve minha filha
lerá sozinha todos os seus mais de 200 livrinhos. Pois, uma outra mágica nos
une, a magia do prazer da leitura. Desde bem pequena, ela pegava os livros e
dizia: “Mamãe, vamos brincar de ler?”.

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