terça-feira, 25 de novembro de 2014

Mágica

A coisa mais vívida de minha infância era meu desejo de
aprender a ler. Nunca mais desejei tanto algo quanto desejei aprender aquela mágica de decodificar aqueles pequenos desenhos, organizados um ao lado do outro. O que diriam os livros, as placas, as revistas? Eu era surda e ansiava pela magia de ouvir os sons que lesse um dia. Me esforcei tanto que, aos seis anos estava lendo, coisa que na época era muito rara.
Hoje, as crianças leem aos cinco.
Minha emoção em ser capaz de ler minha primeira frase, “A casa fica no bosque”, só não foi maior do que quando ouvi minha filha dizer “gato”. Olhei de supetão e vi que ela repetia a palavra grafada na capa de um livro. Resolvi testá-la: “O que foi mesmo, filha?”. Decidida, ela apontou para o texto: “Gato”, simples assim, como se uma varinha de condão tivesse tocado sua cabecinha – plim, agora você sabe ler.
Lembrei-me de todo o tempo em que passamos sobre o tapete de EVA colorido, lendo em cada quadrado, uma letra do alfabeto. Recordei a primeira palavra que ela escreveu, que foi seu próprio nome, mais desenhando do que entendendo cada letra. Agora, tudo ficava diferente.
Susto mesmo foi no dia em que ela repetiu com meu marido a exata cena que vivi com meu pai há anos. No momento em que meu marido arrancou o carro no sinal verde, minha filha reclamou no banco de trás. “Ô, pai, eu ainda não tinha acabado de ler a placa!”.

Hoje, a mágica está quase completa, em breve minha filha lerá sozinha todos os seus mais de 200 livrinhos. Pois, uma outra mágica nos une, a magia do prazer da leitura. Desde bem pequena, ela pegava os livros e dizia: “Mamãe, vamos brincar de ler?”. 

domingo, 16 de novembro de 2014

Um choro na noite

Sempre ouço uma criança chorando ao longe no silêncio da noite. O choro não vem sempre do mesmo lugar, o que me faz pensar em quem são elas, essas crianças chorando ao longe. E pouca coisa gela mais meu coração que berros de criança gritando, dizendo palavras emboladas que tento desesperadamente decifrar. Será uma birra, apenas? Será um pedido de socorro?
Por que motivo choram essas vozinhas no escuro? Elas fogem pela janela de um dos prédios ao lado do meu, mas o som emitido no silêncio da noite nos engana. Acho que vem daquela janela. Não, talvez seja do edifício atrás desse.
Deito-me ouvindo o choro de uma criança ao longe. Ela pede alguma coisa, mas eu não posso ajudar. Nem sei onde ela está.
Por fim, durmo o sono dos covardes, fechando os olhos com força, tampando os ouvidos, segurando as lágrimas nos meus olhos.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Castelos no ar

A princesa, com apenas quatro anos, corre pelo imenso palácio de concreto. Imponente, amplo, gigantesco até. Ela é a princesa do palácio e pode correr o quanto quiser. Os escravos que a acompanhem, se não quiserem perde-la de vista. Só por diversão, sobe e desce, bailando, a majestosa rampa de três voltas atapetada de verde.

Mas, ao badalar das 22h15, a brincadeira termina. É hora de parar a correria no castelo dos Confins e entrar na sala de embarque.

Não importa o cenário onde minha filha está. O aeroporto vira um castelo e, daqui a pouco, o avião pode virar uma nave espacial para marte. É por isso que gente grande fica tão entediada. Não nos é possível se divertir porque está preso no aeroporto há duas horas. Mas, para eles, tudo é possível. Nunca mais sua vida foi tão divertida quanto aos quatro anos.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Solidão pequena

Ontem à noite, fiquei olhando Laura brincando sozinha na área do apartamento. Ela estava envolvida em alguma história emocionante, na qual fazia o papel de todos os personagens. Ela perguntava e a outra “ela” respondia. Minha filha dava voltas na pequena área, mas percebia-se que ela na verdade não andava por ali. Em sua fantasia, podia estar em um castelo, uma montanha, um calabouço. Senti uma imensa tristeza ao ver a infância da minha menina passada na mais completa solidão. Ninguém para dividir suas bonecas, seus livrinhos, ninguém para interpretar a princesa ou o dragão.

Há muito me sinto culpada pela minha escolha de ter filha única. Mas, que novidade há nisso? Ser mãe é sentir-se culpada por tudo, mas a situação se agravou com o fato de não existir outra criança num raio de 500 quilômetros! Ninguém mais tem filhos, não há crianças no edifício onde moro, nem na residência do lado, nem na da frente. Não há crianças em lugar nenhum. Cheguei a pensar em abrir um serviço de aluguel de pequeninos. Aluga-se criança para brincar com seu filho único. Promoção da semana: pague um menino de cinco anos e leve grátis, por três horas, mais duas crianças!
Fiquei obcecada pela ideia de arranjar um companheirinho a todo custo. Passei a frequentar todas as festas da escola, chegava perto das outras mães e tentava fazer amizade. Assim que tinha uma brecha, disparava: “Empresta-me sua filha que eu levo ela no parque e pago todas as despesas. Leve seu filho na minha casa, sirvo bolo de chocolate com refrigerante.” Depois de semanas de insistência, zero crianças alugadas. Fiquei ofendida, mas imagino que aquelas mães devem ter me achado um pouco psicótica, então tudo bem.

Eu sabia que parte de minha culpa era por lembrar-se de minha própria infância, com três irmãs, quatro vizinhas ao lado, uma melhor amiga na rua de baixo e mais de 10 primos nos finais de semana. Sempre havia uma criança por perto, era matéria prima abundante para construir casinhas de bonecas e mundos de faz de conta. Será que minha filha vai ser menos feliz, menos criativa e ter menor capacidade de interação por viver uma experiência tão diferente da minha? O que ela pode perder, além de lembranças que nunca terá, como as que eu tenho das brincadeiras no quintal de terra?
Mas, isso foi ontem. Hoje, eu tive um grande desapontamento, daqueles que apertam seu coração de um jeito que você o sente retorcer no seu peito. A dor quer sair de qualquer jeito e você pega o telefone, pronta para discar o número da melhor amiga. Neste momento, você lembra que não tem ninguém para quem ligar. Repassa um por um os nomes de todos os conhecidos em sua agenda mental - colegas de trabalho, antigos colegas de escola reencontrados no Facebook, sua ginecologista, a turma da hidroginástica e seus vizinhos. Nenhum deles é realmente um amigo. Não há uma única pessoa que se importe realmente com a dor no seu peito. Ninguém virá para brincar com você.

A sensação de não ter com quem falar é a mesma que a gente sente ao pular numa piscina muito funda. Estar só é asfixiante.


Penso em Laura e sua solidãozinha. Não quero concluir com tudo isso que, é melhor para ela se acostumar com o mundo frio e cruel e já chegar pronta no futuro sem amigos que a aguarda. Não quero ser tão amarga assim. Melhor pensar que, pelo menos ela crescerá segura de si, completa, bastando-se a si mesma. O que conseguir encontrar de amizade será lucro. Mas, se faltarem amigos, ela sempre poderá brincar sozinha e voltar a sorrir.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Cão & adoção

- Mãe, já que você não me dá um irmão, me dê ao menos um cachorro.
Como responder não a um apelo desses? Minha filha única acertou em cheio a flecha da culpa em meu coração de mãe. Não é que eu não goste de cachorros, pelo contrário. Tenho uma galeria de lembranças caninas da minha infância e adolescência que sempre me despertam um apertinho de saudade. Mas, agora moro em um apartamento e ter um cachorro significa lidar com o odor de urina e fezes em um espaço muito pequeno. Sem falar nos pelos grudados no sofá, dos latidos de madrugada e mais um monte de dificuldades. Resolvi enfrentar todas elas, começando pelo meu marido. Adotei uma nova tática, ao invés de dialogar (coisa que já estava fazendo há um mês) eu apenas avisando que já marcara para pegar um cachorro que fora colocado para adoção.
- Você sabe que eu não quero, vai sobrar para mim – Ele começou irritado.
- Eu vou cuidar. – garanti.
- Mas a Laura pediu um cão da raça Pug, que custa mais de mil reais.
- O que nos dá uma ótima oportunidade de ensinar à nossa filha que ela não deve gostar de um cachorro porque ele está na moda ou é bonito. Adotar é que é tudo de bom.
Mesmo determinada, confesso que fiquei insegura na hora da adoção. E se o cachorro fosse de comportamento agitado, comesse os brinquedos da Laura, destruísse minha vassoura, fizesse cocô no lugar errado e não soubesse se comportar nem obedecer? Pois o cachorro era tudo isso e mais um pouco, mas eu só descobriria a verdade duas semanas depois.
Laura se apaixonou perdidamente por Mutley, o que já era esperado. Mas, engraçado mesmo foi assistir meu marido se derretendo aos poucos pelo vira latinha. Quando chegamos a casa, ele decretou.
- Esse cão já foi abandonado duas vezes. Daqui, ele não sai mais.
Nas primeiras semanas, Mutley parecia assustado e confuso. Se eu me levantava do sofá e ia até a cozinha, ele levantava de um pulo e me seguia, olhando-me com os olhinhos arregalados. Parecia perguntar: “Aonde você vai? Vai voltar? Ou vai me abandonar?” Ele estremecia ao chegar perto do jornal para fazer xixi, aparentando ter sofrido algum mal trato por isso, pois ele chegou a segurar a urina por quase dois dias. Uivava e chorava desesperadamente ao ser deixado sozinho, mas depois parava.
Finalmente foi se acalmando e aí... Pronto! Mutley agora está à vontade. Rouba os brinquedos de Laura, já decapitou duas bonecas, não me obedece quando chamo e seu próximo plano é rasgar a guia da coleira novinha (já roeu metade).

Fico furiosa e aí ele chega perto de mim com aquelas orelhas negras caídas, abanando o rabo todo satisfeito. Está ganhando peso e brinca horas com minha filha. Se não dou atenção, ele morde meu pé e antes que eu tenha chance de ralhar com ele, corre até a área e volta com uma corda com a qual brincamos de cabo de guerra. Estou com dor nos joelhos de tanto brincar com minha filha de pegar o pequeno cachorrinho, ele roda todo o apartamento em um segundo. Enfim, agora minha vida está uma bagunça. Graças a Deus.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Um balde de gelo

Como vivo no mundo da lua, só ontem tomei conhecimento sobre um viral que agitou o mundo inteiro, o desafio do balde de gelo. A brilhante iniciativa desafia pessoas, muitas delas famosas, a jogarem um balde de gelo na cabeça e/ou doar dinheiro para o combate à ELA - esclerose lateral amiotrófica. Além dos milhões de anônimos, é possível assistir vídeos de Mark Zuckerberg, criador do Facebook, Bill Gates, da Microsoft, Lady Gaga, Ana Maria Braga, Ivete Sangalo ou Neymar, tomando o banho gelado e desafiando outros famosos.

Depois de rir a valer com as cenas, fiquei pensando que sorte tinham aquelas pessoas, que só precisavam suportar alguns segundos do choque gelado em seus corpos, comparado ao que precisam suportar as vítimas dessa doença, a mais cruel que conheço.

Há seis anos, o apartamento à frente do meu foi ocupado por uma mulher na casa dos seus 50 anos, mas extremamente bela. Pele imaculadamente branca, cabelos lisos e negros e olhos espetacularmente azuis. Não conversávamos, não sou de aproximar-me de vizinhos, após algumas experiências desastradas. Mas, meses depois a reencontrei no corredor andando com o auxílio de um andador. Imaginei tratar-se de um problema temporário, até revê-la tempos depois empurrada na cadeira de rodas por uma cuidadora. Senti remorso por nunca ter lhe dirigido a palavra, aquela mulher estava definhando a olhos vistos. Estava mais magra e seus pés pareciam retorcidos.
Um dia, ao chegar do trabalho, vi sua porta aberta. Adivinhando a presença de alguém, a mulher se pôs a gritar por ajuda. Ela estava na cama, sozinha. Explicou-me que a cuidadora não aparecera e ela precisava de água. Falava de um jeito altivo, não parecia ter o espírito diminuído pela doença. Naquela noite, eu dei-lhe sopa na boca pela primeira vez. Estabeleceu-se uma rotina, eu lhe dava o jantar, ajudava-a a usar a comadre e mantinha a porta de meu apartamento aberto, caso ela gritasse no meio da noite pedindo algo. Passamos de completas estranhas a grandes amigas no espaço de uma semana.

Ela explicou com calma que não havia cura para a ELA. A doença subiria por seu corpo, dos pés à cabeça, paralisando e retorcendo cada músculo até atingir as vias aéreas, e então ela não seria mais capaz de engolir qualquer alimento ou mesmo respirar sozinha. Disse que não se revoltava, a única tristeza era não ter mais movimento nos dedos para terminar seu livro de memórias.

A família a visitava pouco, não era por maldade. Desejavam que ela se internasse, e a ausência deles era um protesto contra a recusa dela. O problema é que o corpo daquela mulher regredia para um estágio de quase bebê enquanto sua consciência, com as privações e sofrimentos, se tornava cada vez mais madura e elevada.

No final, ela venceu e a família contratou cuidadores para o dia e a noite, mas foi levada para outro edifício, com melhor acesso à cadeira de rodas. Antes da partida, trocamos livros emprestados, ela era também grande amante da leitura.

A última vez que nos falamos por telefone, contei a ela que esperava uma filha e a cuidadora traduziu seus grunhidos de parabéns. A doença chegava ao esôfago e ela não comia mais pela boca. O próximo passo era a respiração, e isso encerraria para sempre suas palavras.


Ela ficou com meu livro, “O Código Da Vinte”, e eu fiquei com “Memórias de uma Geixa”. Saí ganhando. Gosto de olhar a dedicatória na primeira págin,a que uma desconhecida escreveu para minha amiga, e fingir que fui eu quem escreveu, que fomos amigas quando ela ainda andava. E a gente foi ao shopping assistir um cinema. Depois, uma pizza e dois chopps gelados.  E voltamos para casa bêbadas, mas caminhando.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Ser mãe é repetir

Quantas vezes você precisa repetir uma ordem para seu filho? Se respondeu três, bata os joelhos no chão e agradeça. Depois dos “terrible two”, você pensa que está finalmente segura. O pimpolho está entrando no ensino fundamental e já tem claras noções sobre deveres e obrigações. Então, dizer o comando uma única vez, será o suficiente, certo? Errado. Por volta dos seis anos, a criança resolve que já te deu folga o suficiente, e vai testá-la outra vez. 

Então, vamos à enquete. Qual é a frase mais repetida em sua casa?
Vai tomar banho.
Guarda a pasta.
Escova os dentes.
Não jogue lixo no chão.
Vai fazer o para casa.
Venha almoçar.

Eu calculo que, para cada comando, preciso repetir um mínimo de seis vezes, mas já cheguei a 15 com o “Vai tomar banho”. 
Nessas horas, eu peço que Deus me dê paciência. Mas, ele dá uma risada e responde: “Pois se eu te dei essa criança exatamente para você desenvolver o dom da paciência!”. Ai, meu Deus, eu me submeto.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Patriotismo é só uma palavra

A escolinha mandou um bilhete, pedindo que as crianças fossem de verde e amarelo para a última aula, um dia antes de começar a Copa do Mundo no Brasil. Lembrei que tinha avistado semana passada, camisas infantis do tema a 10 reais e fui satisfeita fazer a compra. Como sou ingênua. É claro que, faltando apenas três dias para o início do Mundial, o preço sofreu um ligeiro acréscimo de 100%.  Indignada, comprei assim mesmo, afinal o evento da escola já estava marcado e, na oportunidade, eles iriam ensinar às crianças noções de pátria e civismo.
Meu Deus há quanto tempo não ouvia essas palavras. Soaram tão empoeiradas, em particular a segunda, que me transportou para uma aula de Educação Cívica que tinha quando criança, na qual decorávamos o Hino Nacional e estudávamos o significado das cores da bandeira.
Para preparar o terreno, chamei minha filha e mostrei lindas imagens do Planeta Terra no Google, apontando o Brasil, identificando o nosso Estado e, por fim, nossa cidade. Depois expliquei que pessoas dos outros países iriam pegar um avião e vir até o nosso país para jogarem futebol e que todos queriam que suas pátrias ganhassem.
- Entendeu, filha, pátria é o nosso país.
- Mas nosso país não é o Brasil?
- Sim, mas é a sua pátria, mais do que um lugar onde você nasceu, é toda a bagagem de cultura, história... – parei nesse ponto ao perceber que já a havia perdido. Laura tentava acessar um joguinho da Barbie no computador. Por que não? Afinal, a Barbie é tangível, ela a conhece, compreende o que é. Mas, essa tal pátria, onde está que não estou vendo?
Se minha filha tivesse visto a pátria se transformando ao redor dela para receber a Copa do Mundo, talvez ela a entendesse melhor. Se ela tivesse visto bandeirolas verdes e amarelas cruzando a rua num zigue-zague festivo, ela pararia para pensar qual o motivo daquilo tudo. Se tivesse assistido a cena dos vizinhos na rua pintando a bandeira do Brasil na calçada, ela talvez pudesse entender o que é esse sentimento que une pessoas diferentes em torno de um mesmo ideal. Não era possível que ela entendesse a pátria vendo uma página do Google.
Senti uma tristeza imensa olhando sua cabecinha atenta ao jogo da Barbie, pensando que ela não teria as mesmas experiências que eu tive com minha pátria. São flashes, cenas que me marcaram. Minha mãe pedindo a meu pai que não escrevesse mais contra o governo militar no jornal da universidade. Minha irmã mais velha saindo para a passeata do movimento das Diretas Já. Avistar Lula ao vivo pela primeira vez numa palestra na faculdade (mesmo que, anos depois, tenha sido ele minha grande decepção, naquele momento, eu acreditei. Ele me fez querer participar.). O caixão de Tancredo Neves passando pela avenida sobre um carro de bombeiros. Eu e minha irmã estourando uma garrafa de champanhe depois de podermos votar para presidente pela primeira vez na nossa vida. Nós choramos aquele dia. A alegria pipocando em nossos corações como as bolhas da bebida dentro das taças.
O que é a pátria hoje? Alguém se importa? A apatia matou a pátria, e até as passeatas de hoje, tão manipuladas, tão amplas, com tantos objetivos, não apresentam um foco claro. Qual é o objetivo? Como Milan Kundera falou certa vez, talvez tudo o que as pessoas consigam seja provocar um espetáculo. No nosso caso, um transtorno no trânsito. Mas, depois de tantas passeatas, qual é o próximo passo? Ninguém sabe.

A pátria agora é só uma palavra a mais para entrar no vocabulário da minha filha. E o sentimento cívico, um espetáculo que assistimos no noticiário e nos posts do Facebook. A gente não precisa fazer nada, só dar um like.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

O que você ganhou no Dia das Mães? Uma reflexão para a mãe que tem medo de pedir o que quer.

O que você pediu de presente para o Dia das Mães? Se está achando a pergunta absurda, é porque você, como a maioria das pessoas, pensa que mãe não pode pedir nada. Mãe só pode ficar lá, em seu pedestal, sem macular sua imagem com desejos mundanos e egoístas.
- Não precisa de presente, meu filho! Só o seu amor me basta.
Pois eu quis um presente sim, um presente caro e muito egoísta, pois só dá para usar um de cada vez, dois não partilham o objeto ao mesmo tempo. Eu queria um notebook (olha, que inusitado, uma blogueira não tem seu próprio notebook). Pois eu sou mesmo inusitada, nunca confiei em notebook porque é uma coisinha de nada, toda solta, que você coloca no colo. Eu só confiava em computador grande, pesado, composto por tela, torre, teclado e mouse, tudo amarrado junto por um emaranhado de fios que jamais removo pois posso não saber em qual buraco plugá-lo depois. 
Mas, como venho me modernizando tecnologicamente, ousei sonhar com este presente caro, mesmo depois de ter combinado com meu marido, há três anos, que jamais daríamos presentes de dia dos pais e das mães um para o outro. Não era por falta de amor, mas para não nos entregarmos ao consumismo e à exploração dos preços que dobram nas datas comemorativas. Nosso plano era educar nossa filha para que ela crescesse aproveitando as datas apenas para expressar seu amor com palavras carinhosas, e não se endividar no cartão de crédito.
Ainda acredito mesmo que o melhor caminho é se livrar dessas armadilhas do mercado, mas essas comemorações acabam tendo uma utilidade. Afinal, se não for no dia das mães, quando você iria tirar um domingo inteiro para se juntar aos seus irmãos em homenagem à progenitora? É quase um Natal, o tal dia das mães, bomba mesmo!
Então, liberte-se, peça presente, coma picanha, exija cartões melosos, ponha os filhos para cantarem para você aquela música antiga (Mamãe, mamãe, mamãe! Tu és a razão dos meus dias!) e aproveite cada homenagem. Pense bem, você merece.
P.S.: deu quase certo meu pedido de dia das mães. Ganhei um Tablet roxo. Ou, como diz minha filha, purple (tô ensinando as cores em inglês para ela). O tal negócio é moderninho, lindinho e, ainda por cima, é Android, ou cyborg, ou exterminador do futuro, sei lá, uma coisa assim. Mal posso esperar para descobrir para que serve um Tablet. Tenho certeza de que vou adorar.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Cantinho do castigo

Não importa quantos eufemismos usemos para disfarça-lo. Podemos chamar de hora de descansar, momento para pensar ou dar um tempo. O verdadeiro nome, castigo, está lá escondido. E porque deveria estar? Sentimos vergonha de castigar nossos filhos como se estivéssemos sendo cruéis. Claro, existem castigos e castigos. A crueldade com que crianças são tratadas existe e, nem sempre, é apenas na hora do castigo. Frieza e indiferença com as crianças é muitas vezes a crueldade mais comum. Mas, tirando as aberrações de torturas físicas e psicológicas, castigar um erro é certo ou errado?
Se no modelo de relacionamento entre pais e filhos usado nos anos 50 a 70, o distanciamento e a rigidez das regras trouxeram malefícios, o afrouxamento total que os pais das últimas décadas têm apresentado beira a mediocridade. Afinal, ser pai e mãe de verdade exige trabalho, acompanhamento e... Correção. Já estou até vendo narizes se torcendo por minhas ideias antiquadas, porque ninguém quer este papel, não é? Quem quer ser o chato que critica, que coloca de castigo? Muito mais bacana é ser amiga do filho. Só que, amigo do seu filho, todo o mundo pode ser, mas apenas você pode ser a mãe. Se não ensinar e der limites desde o começo, outra pessoa vai fazer isso por você. Pode ser um professor ou pode ser um policial. Pior, pode ser um traficante.
Nunca usei enfeites no nome, sempre fui clara com minha filha que as ações têm consequências que podem ser boas ou ruins. Quando ela recebesse um castigo era para se lembrar disso. Então, escolhi um canto da sala que foi denominado canto do castigo. Não haveria gritos (claro que, às vezes, escapavam alguns) nem tapas (esses, só me escaparam duas vezes). Apenas me agachava para ficar na altura dos olhos dela, a fim de não intimidar a menina, explicava o motivo do castigo e, sem conversa, posicionava-a junto à parede pelo tempo da idade (um minuto para cada ano de vida).  Era tão civilizado que, lembrando-me dos castigos do meu pai e dos tapas da minha mãe, me perguntava se funcionaria. Mas, a criança aprende a nivelar por cima, então se ela recebia um tratamento sempre bacana, mesmo um castigo tão leve era o suficiente para deixa-la arrependida e até chorar.
Depois, vinha o momento de fazer as pazes, agachava-me novamente e olhava-a nos olhos, perguntando se queria pedir desculpas e nos abraçávamos. Nem sempre era tão certinho assim, às vezes ela me desafiava e não pedia desculpas, então ganhava mais uns minutos no cantinho. Mas, no final, dava tudo certo.
O inesperado foi que, quando você castiga desde cedo, a criança evolui para um estágio diferente muito rápido, e mostra para você que não precisa mais daquele tipo de castigo.
Um dia, minha filha de cinco anos me pediu para colar um desenho na parede. Como iríamos pintar o apartamento, resolvi deixar. Quando fui ver, ela havia colado um pequeno papel no exato local do cantinho do castigo, com seu nome escrito e o desenho de uma menina com os lábios curvados para baixo e lágrimas caindo dos olhos. Chorei, mas ela só disse: “Mamãe, é que eu não preciso mais”. Agora, as conversas bastam, passamos para outra fase, eu e minha menininha. Tudo, porque começamos do jeito certo.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Para casa, para tudo!

Agora, é para valer. O temível "para casa" do segundo período tem a frequência de três vezes por semana e não basta só colorir desenhos, não! Tem que escrever letras e números. Sei que os pais cujos filhos já estão cursando disciplinas de biologia e matemática acham meus temores risíveis. O que o dever escolar de uma criança de 5 anos pode ter de complicado? Fórmulas químicas ou conhecimentos avançados de física? Tudo bem, eu admito, que se eu tivesse que auxiliar minha filha em matérias cujas lembranças estão tão longínquas em minha memória, eu também estaria em apuros. Para ser vergonhosamente sincera, eu não sei mais de cor quanto é 7 vezes 8 nem tenho a menor ideia do que são mitocôndrias. Mas, há um grande desafio no "para casa" das crianças - elas mesmas e sua vontade de brincar só mais um pouquinho.
É só chamar para fazer o dever para começar a ladainha. "Mãe, justo agora que eu montei a casinha? Hoje eu não estou com vontade. Mas, vai começar os Backyardigans agora, mãe!" Argumentos não faltam para procrastinar a tarefa mais cinco minutos, depois mais 20 e por aí vai.
Se bater de frente, os efeitos podem ser devastadores. Usar a força para sentar o menino na cadeira ou xingar podem fazer a criança tomar verdadeira birra dessa tarefa que deve ser tornar uma rotina comum que o acompanhará por toda a vida escolar.
Mas, se bater de lado, aceitar adiar ou deixar para lá, com certeza também passa a ideia de que para casa não é uma obrigação. E é uma obrigação sim.
Meus pais me ensinaram isso desde pequena e não fiquei traumatizada, muito pelo contrário, me deu a única disciplina que funcionou na minha vida, a de levar os estudos como minha responsabilidade e o entendimento de que passar de ano era minha obrigação.
Não fui a primeira da classe mas nunca fiquei nem em recuperação.
Por isso, não tive dúvidas. Quando minha filha se recusou a fazer o para casa, abaixei-me, olhei-a nos olhos e disse:
- Filha, você não precisa fazer nada se não quiser. Só que, quem faz o dever aprende a ler e pode ler todos os livros e revistinhas em quadrinhos que quiser. Quem estuda, vai para a faculdade ser o que quiser. Você não quer isso?
- Não mamãe.
(Puxa! Não contava com essa... Ela nem sabe o que é faculdade, tem que ser algo que ela entenda. Já sei! )
- Se não fizer o para casa, não tem joguinho no computador.
- Abre o caderno aí, mãe.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Hoje tem marmelada? Tem sim senhor!

Trapezistas, malabaristas, mágicos e palhaços. Todos esses personagens fazem parte do meu imaginário infantil, muito mais pelos filmes dos Trapalhões e do Jerry Lewis do que por experiência mesmo. Não me lembro de ir ao circo na infância, me lembro dele entrar na minha cabeça pela magia do cinema de tal forma que eu tinha saudade do que nunca vivi. Que nostalgia dos espetáculos sob a lona colorida que, na verdade, jamais presenciei.
Finalmente, matei minha saudade imaginária do jeito mais poético que poderia esperar. Aproveitando a Campanha de Popularização do Teatro e da Dança, um dos eventos mais bacanas realizados em Belo Horizonte, levei minha filha e até meu marido eremita ao circo Irmãos Simões. Nada como ter uma criança para servir de desculpas para meu desejo secreto de ir ao circo. Mal sabia eu que, ao atravessar a boca da gigantesca cabeça de palhaço, recortada em madeira como um portal para a tenda, eu entrava numa máquina do tempo.
O espetáculo era o mais puro exemplo do circo brasileiro, mambembe, família. O pai equilibrista, depois de subir em cilindros, que ficavam balançando de cá para lá, equilibrou a própria filha de dois anos com uma das mãos. Era possível ver as fraldas por debaixo do body vermelho e brilhante. A mocinha que se arriscava dentro de uma caixa, na qual o mágico enfiava espadas impiedosas, estava de salto, mas devia ter uns 14 anos. Os trapezistas mais velhos, meio barrigudos, ainda davam seus saltos triplos e mortais. Girando no ar, eram jovens de novo. Entre eles, um rapaz magrinho tinha a silhueta certa para o negócio, mas lhe faltava ainda a ginga dos tios pesados. Ele foi apresentado como a terceira geração da família e no final do show, mostrou seu valor pulando um arco de fogo.
Na hora dos palhaços foi que lembrei que, na verdade, estava no espetáculo por causa da minha filha, pois foi quando ela mais vibrou, ficou de pé e deu suas risadas com a boca cheia de pipoca.

Que delícia ouvi-la rir, não por causa do joguinho de computador na qual ela é viciada, nem por causa dos desenhos que a hipnotizam na TV. Experimente e verá. Nada se compara à risada provocada por um palhaço se esborrachando no chão.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Mamãe, posso dormir na sua cama?

O que fazer quando os pequenos regridem e abandonam suas caminhas para pular na cama do casal.


A maior das maravilhas é ver nosso filho progredindo, sendo cada vez mais indenpendente. Cada libertação é comemorada - conseguir beber do copo sem derramar, ligar a televisão sem ajuda, vestir a própria blusa, etc. Mas, algumas evoluções das crianças são ainda mais comemoradas, uma vez que favorecem também aos pais. Fazer o filho dormir a noite toda no próprio quarto, em sua própria caminha e, de brinde, ganhar noites a dois mais  tranquilas, é um benefício que os pais podem levar anos para alcançar. Mas, e quando depois de todo treinamento, as crianças querem novamente o aconchego no ninho do leito dos pais?
Há cerca de três meses, minha filha passou a acordar diversas vezes na mesma noite, cada hora com um pretexto. Primeiro, pedia água, depois, para ir ao banheiro e por aí varava a noite. "Mãe, ascende meu abajur? Mãe, estou com frio. Mãe, tira minha coberta?"
Eu voltei aos tempos de quando ela era um bebê, levantando-me a todo instante atordoada de sono. Ao final de alguns dias, coloquei meu marido no sofá cama e a filha na minha própria cama, com um suprimento de água e biscoitos no criado mudo para não ter nem que levantar. Foi minha perdição. Aí que ela não parou mesmo de solicitar meus serviços como se eu fosse aquelas lojas 24 horas. 
Mudei de tática. Expliquei que ela já era uma minina grande e deveria ficar em sua cama. No meio da noite, quando ela me chamava, respondia sem me levantar: "Vire para o canto e vá dormir, filhinha". Você está pensando que minha estratégia foi tiro e queda, não é? Foi só assumir esta nova postura e tudo voltou ao normal. Infelizmente, não se fazem crianças como antigamente. Os modelos atuais são bem mais espertinhos.
Como Maomé parou de ir à montanha, minha filha resolveu sair do próprio quarto e, correndo para tomar altura, pular bem no meio da minha cama! Faltei ter um infarto da primeira vez em que ela me acordou assim, achei que era um terremoto.
Para solucionar esse problema, foi preciso vários dias e muita dedicação, mas se você não encarar logo, esse hábito pode se arrastar por anos, como já aconteceu com uma amiga minha. Então, prepare-se:
  1. O primeiro passo é descobrir o motivo. Desconfortos podem vir da temperatura - quente ou frio demais, do colchão da criança que pode estar desgastado, de algum barulho que esteja provocando este despertar noturno.
  2. Cuidar para que a alimentação antes de dormir não seja nem pesada e nem escassa que propicie a criança acordar em busca de um lanchinho.
  3. Se o tempo é de calor, talvez um banho morno ajude a preparar o corpo para uma boa noite de sono, retirando o suor e relaxando os músculos.
  4. Com os canais infantis funcionando sem parar, preste atenção qual é o último desenho animado que seu filho assiste antes de dormir. Dê preferência a programas mais calmos e já deixe o volume abaixado, reduzindo também a iluminação da sala.
  5. Não aceitar receber a criança na cama. Esse é o mais difícil para os pais que ficam com pena dos filhos e, ao mesmo tempo, estão tão cansados que acaba sendo a atitude mais fácil na hora. É preciso reunir forças, levar a criança de volta à cama e, se preciso, esperar sentada em uma poltrona ou em colchonete no chão até que ele volte a dormir, mostrando claramente que a regra é cada um na sua cama.
  6. Se o motivo dos problemas noturnos for medo, é mais complicado. O medo do desconhecido é algo que atinge pessoas de todas as idades, todos nós temos medo de algo e superar este sentimento é sempre um desafio. Costumamos fazer pouco caso do medo das crianças, porque são os que já superamos, mas é preciso respeitar a fase em que estão, quando o escuro esconde monstros e fantasmas. Neste caso, uma luzinha indireta é de grande ajuda, mas o maior trunfo é criar um amuleto anti-monstros. Pode ser uma oração, a garantia da presença do anjo da guarda ou de um boneco de super-herói ao lado do travesseiro. Algo em que ele possa se apoiar para ir, aos poucos, exercitando seu próprio autocontrole.
O importante é não deixar se prolongar e resolver o problema para que a família toda volte a ter uma boa noite!

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Brincando

A menina corre pelo imenso palácio de concreto. Imponente, amplo, gigantesco até. Ela é a princesa do palácio e pode correr o quanto quiser. Seus escravos que a acompanhem, se não quiserem perdê-la de vista.

Só por diversão, subiu e desceu bailando a majestosa rampa de três voltas, atapetada de verde. E tornou a subir e descer, pelo puro prazer de mover o corpinho, de criar uma brisa no rosto com sua correria desvairada. Os adultos que a viam, sentiam a saudade de quando seus próprios corpos podiam se dar ao luxo de gastar energia sem nenhum objtivo.

Assim continuava a brincadeira sem fim, até que, ao badalar das 22:15h, é hora de parar a correria no castelo dos Confins e se dirigir à sala de embarque. O cenário volta a ser apenas o aeroporto e seus serviçais retornam ao posto de pais. Mas, ela não está triste, vê a lateral do avião no qual entrará em segundos. Vai começar outra aventura. O avião poderá se transformar em uma nave espacial para Marte e a aeromoça é uma espiã que tentará atrapalhar seus planinhos.

É por isso que a vida é mais divertida aos quatro anos.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O perigo por trás da tela

Crianças cada vez mais novas acessam o conteúdo da internet

Minha filha descobriu o Youtube. Só preciso deixar a tela do buscador aberta e ela mesma digita a letra Y. Imediatamente aparecem as opções e ela clica na primeira, sabendo que a opção com cor diferente é a mais acessada (olha a esperteza de baixinha). Também por ser muito acessado, o site abre ofertando à minha menina opções de vídeos que a interessariam. O Grande Irmão já sabe o que se passa na cabeça da minha filha, lembra o que ela viu da última vez em que o visitou e dá novas opções, outros filminhos similares. É um pouquinho assustador, a noção de que minha filha, com apenas cinco anos, não sabe ler, mas reconhece nomes de sites pelo seu desenho e já consta na pesquisa virtual como uma consumidora de hábitos.

Sua preferência são trechos musicais de desenhos animados, jogos de monstros e video clips da Lady Gaga. Nem sabe português direito mas canta foneticamente “Bad Romance” e “Poker Face”. Ainda não foi alfabetizada, mas já está treinada em pular os comerciais que infestam a internet. Ela clica na hora certa, não perde nem um segundo.

- Filha, como você aprendeu a fazer isso?

- A titia me ensinou. A palavra "pular" começa com a letra P, mãe? Aí, aparece esse quadrado aqui e, quando vejo a letra P, eu clico em cima.

Pobres anunciantes...

vai ela clicando em diversos filminhos e eu na cozinha lavando a louça, ouvindo. De repente, percebi que a música ficou meio estranha, não parecia mais uma coisa infantil. Era um rock pesado e reconheci alguns palavrões cantados em inglês. Larguei tudo e corri para a sala. Na tela, os bichinhos do desenho estavam transfigurados com deformações, vestidos de couro preto e com chicotes em frente ao olhar estupefato de minha menininha. Em desespero, eu clicava em tudo quanto é botão e demorei a conseguir tirar a imagem do ar.

- Mãe, por que eles estão assim? Eles ficaram maus?

- Filha, nem tudo o que a gente encontra na internet é bom para você assistir, entendeu? Algumas pessoas fazem coisas erradas com os desenhos de crianças, e isso não é bom.

- Por que eles fazem isso?

- Porque...

Percebi que eu não tinha a resposta. Não sabia o que levava as pessoas a produzirem um conteúdo inadequado disfarçado de desenho animado. Eles sabem que o público que procurará esse material é inocente, sem capacidade ainda de discernir o que pode ser visto daquilo que deve ser evitado. Qual deve ser o interesse de se postar uma mensagem apenas para provocar o mal estar em uma criança? O tipo de mente destorcida que faz isso seria capaz de outras maldades no mundo real? A crueldade assusta mais quando apresenta-se assim, tão sem propósitos.

A admiração que senti ao ver minha filha mexendo no computador como se fosse gente grande perdeu um pouco o brilho, com o temor de ver seu mundinho ultrajado com mensagens inadequadas. Mas, isso se resolve facilmente instalando um sistema na máquina. O importante mesmo é lembrar que a censura nem sempre é uma coisa ruim. Pais devem censurar sim, o conteúdo da internet para seus filhos dependendo da idade. E, na adolescência, a censura deve dar lugar ao acompanhamento definido em um acordo entre ambas as partes, mas não é possível se descuidar totalmente. Afinal, não sabemos quem está do outro lado da tela do computador, produzindo e enviando mensagens para alguém que ele só vê como sendo um mero público consumidor, ou seja, o seu filho.









quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Triste dia de sol


Uma homenagem à menina de cabelos longos.

 Há alguns dias, uma tragédia abalou a cidade de Belo Horizonte e seus tristes contornos ecoaram por todo o Brasil. Num belo dia de sol, uma menina de oito anos de idade perdeu a vida no fundo de uma piscina em um dos mais tradicionais clubes da cidade. Ao que parece, a garota desceu pelo toboágua e, ao afundar com a queda, teve seus longos cabelos sugados por um tubo que faz a sucção da água para que o escorregador da piscina funcione.

Nessa história, algumas coisas estarão sempre fora do alcance de nossa imaginação. É inimaginável a dor dos pais, o pavor do tio que a acompanhava, o desespero de todos que tentaram trazer aquele corpinho à tona, chegando a tentar cortar-lhe os cabelos com vidros de garrafas quebradas às pressas.

As perguntas são muitas, e sabemos que as respostas demorarão, ou jamais virão. O posicionamento do tubo estava correto? Qual a idade certa para permitir que uma criança escorregue sozinha em um toboágua? Quanto tempo levou o salva-vidas para acorrer ao local? O que poderia ter evitado o desfecho trágico?

Que essa triste história não seja em vão e sirva para nos avivar a memória de que, além de passar filtro solar, há cuidados ainda mais importantes para você tomar em relação aos seus filhos nestas férias.
  1. Não tire os olhos de seus filhos. Mesmo que no caso da menina não tenha adiantado, pois o tio estava de olho nela, esta é ainda a mais importante prevenção para acidentes na piscina ou praia. Sigam seus filhos por todo lado, mesmo que apenas com o olhar. Sei que isso causa grande cansaço e você perderá sua diversão, mas basta um segundo para que aconteça um acidente. Faça turnos entre você, o marido ou uma tia, cada hora um fica de olho.
  2. Até que idade deve-se seguir os passinhos do seu pimpolho? Depende da maturidade de cada um e dos perigos que o local oferecer.
  3. Antes de montar sua barraca na praia ou sua espreguiçadeira na beira da piscina, avalie todos os pontos críticos do local. Profundidade da piscina, localização e tamanho dos tubos de sucção (a piscina deve ter vários tubos pequenos ao invés de um grande), escorregadores, quantidade de crianças na água e etc.
  4. Verifique se há salva vidas no local e posicione-se nas proximidades deste profissional.
  5. Nunca subestime a capacidade dos seus pequenos de inventarem brincadeiras perigosas e interfira se necessário.
  6. Matricule seu filho em uma escola de natação. Algumas até oferecem treinamento para uma criança se virar na água se cair de roupa e tudo.
Enfim, todo o cuidado é pouco e, por mais que dê trabalho e atrapalhe um pouco suas férias, lembrem-se de nossa pequena sereia de cabelos longos, que disse adeus tão cedo, perdida em meio às suas risadas na descida do toboágua e as lágrimas daqueles que a amavam.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Um conto para minha filha - preparando-a para ser a melhor amiga

Você é a minha melhor amiga.” Pronto, estava selado o relacionamento mais importante da vida de uma menina de doze anos. Você podia ter várias amigas, mas era obrigatório eleger a “melhor amiga”. E deveria fazê-lo em diversos grupos: havia a colega número um do colégio, a prima mais querida e a vizinha preferida. O ponto alto era a escolha da principal, uma espécie de miss universo entre as melhores amigas de cada categoria. O resultado causava decepção nas demais e uma alegria esfuziante na escolhida. Era uma honra ser a melhor amiga, mas era também uma enorme cobrança para que você jamais cometesse um erro; uma desatenção lhe custaria o cargo.

Minha primeira melhor amiga foi Cláudia Miranda Starling, cujo nome completo sei até hoje, apesar de termos ambas apenas seis anos de idade quando nos conhecemos. Era um amor não correspondido, a menina não fazia questão da minha amizade, mas eu a adorava, pois ela tinha dois atributos que me encantavam – cabelos lisos e longos e comportamento doce como um anjo. Em resumo, ela era o meu oposto, com meu cabelinho curto e cacheado e a minha personalidade de tiranossauro rex. A última vez que nos vimos, foi há 34 anos, mas acho que reconheceria seu rostinho de boneca mesmo com algumas rugas.

A vaga não demorou a ser preenchida por outra colega de escola, Paula Regina Pizzanni Queiroz. Lembro-me de seu lindo sorriso, consigo ver em minha mente o contorno da sua letra no caderno e o eterno corte de cabelo, que nunca mudou durante os sete anos em que convivemos. Quantas conversas ao telefone, quantos ataques de riso tivemos juntas. Nunca mais ri como aos doze anos, era um riso fácil e farto. Brigávamos muito, vivíamos tirando a coroa de melhor amiga uma da outra e, depois de muito choro, fazíamos as pazes como um casal de namorados. Hoje, olhando para trás, acho que nem com o namorado uma garota reparte conversas tão profundas, secretas e sonhadoras como o faz com a melhor amiga.

A grande surpresa da minha vida foi encontrar uma melhor amiga aos 26 anos de idade. Adeilda Viana antipatizou comigo à primeira vista, pois entrei na empresa substituindo a amiga dela. Eu também fugia dela, com receio de errar seu nome que eu nunca conseguia memorizar. Então, um dia, quando a turma estava de saída para o almoço, nosso chefe nos alcançou no elevador e, grosseiramente, esbravejou com Adeilda por um erro que ela cometera. Nem por um segundo aquela mulher perdeu a educação ou abaixou-se ao nível dele. Aguardou o final da explosão, deu uma explicação cortês e informou: “Resolvo assim que voltar. Estou indo para o almoço”, concluiu ela, virando-se. Na mesma hora pensei: “está aí uma pessoa que tem talento para me aguentar”. Foi assim que nossa amizade durou dez anos, com muitas viagens à praia, pileques em botequins, seções de cinema e de comilanças. Ela era sincera, paciente e tinha um coração enorme. Se faltassem qualidades, bastaria essa: ela me obrigou a estudar para um concurso e é a razão de eu ter um emprego hoje. E também me apresentou a um dos meus filmes prediletos, Sherek! Ao seu lado vivi momentos grandiosos, como quando tiramos carteira de motorista juntas, e momentos terríveis, como a falência da empresa da qual éramos sócias. Adeilda tinha mãos lindas, acho que eram um reflexo de sua generosidade. Segurei aquelas mãos por longos minutos em nossa despedida.

Hoje, não faço ideia do que aconteceu à Cláudia, nunca mais a vi. Alguns amigos são assim, estão presentes na sua vida apenas num determinado momento e desaparecem quando chega a hora de você aprender coisas novas com outras pessoas.

Paula decidiu um dia que eu não servia mais como amiga, apertou um botão e me deletou da sua vida. Sem explicações, sem adeus. Era para ser assim, pois às vezes, só uma grande dor nos faz crescer.

Adeilda partiu aos 36 anos de idade. E, por mais doloroso que seja perder para sempre uma das poucas almas que entendeu a sua, no final você acaba se conformando. Porque, às vezes, é preciso uma pessoa amiga lá em cima também, olhando por você, esperando para tomar sua mão na travessia, quando chegar a sua vez.