quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Solidão pequena

Ontem à noite, fiquei olhando Laura brincando sozinha na área do apartamento. Ela estava envolvida em alguma história emocionante, na qual fazia o papel de todos os personagens. Ela perguntava e a outra “ela” respondia. Minha filha dava voltas na pequena área, mas percebia-se que ela na verdade não andava por ali. Em sua fantasia, podia estar em um castelo, uma montanha, um calabouço. Senti uma imensa tristeza ao ver a infância da minha menina passada na mais completa solidão. Ninguém para dividir suas bonecas, seus livrinhos, ninguém para interpretar a princesa ou o dragão.

Há muito me sinto culpada pela minha escolha de ter filha única. Mas, que novidade há nisso? Ser mãe é sentir-se culpada por tudo, mas a situação se agravou com o fato de não existir outra criança num raio de 500 quilômetros! Ninguém mais tem filhos, não há crianças no edifício onde moro, nem na residência do lado, nem na da frente. Não há crianças em lugar nenhum. Cheguei a pensar em abrir um serviço de aluguel de pequeninos. Aluga-se criança para brincar com seu filho único. Promoção da semana: pague um menino de cinco anos e leve grátis, por três horas, mais duas crianças!
Fiquei obcecada pela ideia de arranjar um companheirinho a todo custo. Passei a frequentar todas as festas da escola, chegava perto das outras mães e tentava fazer amizade. Assim que tinha uma brecha, disparava: “Empresta-me sua filha que eu levo ela no parque e pago todas as despesas. Leve seu filho na minha casa, sirvo bolo de chocolate com refrigerante.” Depois de semanas de insistência, zero crianças alugadas. Fiquei ofendida, mas imagino que aquelas mães devem ter me achado um pouco psicótica, então tudo bem.

Eu sabia que parte de minha culpa era por lembrar-se de minha própria infância, com três irmãs, quatro vizinhas ao lado, uma melhor amiga na rua de baixo e mais de 10 primos nos finais de semana. Sempre havia uma criança por perto, era matéria prima abundante para construir casinhas de bonecas e mundos de faz de conta. Será que minha filha vai ser menos feliz, menos criativa e ter menor capacidade de interação por viver uma experiência tão diferente da minha? O que ela pode perder, além de lembranças que nunca terá, como as que eu tenho das brincadeiras no quintal de terra?
Mas, isso foi ontem. Hoje, eu tive um grande desapontamento, daqueles que apertam seu coração de um jeito que você o sente retorcer no seu peito. A dor quer sair de qualquer jeito e você pega o telefone, pronta para discar o número da melhor amiga. Neste momento, você lembra que não tem ninguém para quem ligar. Repassa um por um os nomes de todos os conhecidos em sua agenda mental - colegas de trabalho, antigos colegas de escola reencontrados no Facebook, sua ginecologista, a turma da hidroginástica e seus vizinhos. Nenhum deles é realmente um amigo. Não há uma única pessoa que se importe realmente com a dor no seu peito. Ninguém virá para brincar com você.

A sensação de não ter com quem falar é a mesma que a gente sente ao pular numa piscina muito funda. Estar só é asfixiante.


Penso em Laura e sua solidãozinha. Não quero concluir com tudo isso que, é melhor para ela se acostumar com o mundo frio e cruel e já chegar pronta no futuro sem amigos que a aguarda. Não quero ser tão amarga assim. Melhor pensar que, pelo menos ela crescerá segura de si, completa, bastando-se a si mesma. O que conseguir encontrar de amizade será lucro. Mas, se faltarem amigos, ela sempre poderá brincar sozinha e voltar a sorrir.

Um comentário:

  1. Ola Márcia,
    Sua mensagem tocou fundo no meu coração. Como vc eu tb tive filho tarde e oor isso até agora só tenho ela. Tenho muito medo da solidão e entendi perfeitamente tudo o que vc falou! Que bom que a sua princesa ganhou um cachorro!
    Muios beijos pra vcs!

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