A velha discussão sobre cesariana é novamente conduzida com
desrespeito às mulheres e seu direito para decidir sobre o próprio corpo.
Cesária ou parto normal? Só essa pergunta já deixa bem
claro: cesariana não é uma coisa normal, ou seja, é anormal. E assim o tema foi
tratado hoje de manhã numa reportagem da rádio Itatiaia de BH, onde a repórter
Camila Dias promoveu uma verdadeira caça às bruxas na maternidade Otaviano
Neves, inquirindo veementemente as gestantes e mães presentes se elas tinham
feito o parto normal ou cesária.
O tom de voz da repórter chega ao clímax da ironia e cinismo
quando ela alega que tem mulher que pega o resultado de sangue e já diz que
quer cesária. Como se uma mulher adulta e dona do próprio nariz não tivesse
direito sim de escolher o que deseja fazer com seu corpo.
Vamos separar as coisas, o alto número de cirurgias no
Brasil precisa ser reduzido e o parto normal deve sempre ser a primeira
escolha. Entretanto, se alguém deve ser considerado culpado nesta situação, é o
médico, que induz pacientes a fazerem a cesariana por comodidade. A mulher que
escolhe a cesariana, por medo da dor, não é culpada de nada. Está exercendo o
seu direito de decidir sobre seu corpo, sua vida.
Camila Dias segue nas reportagens tentando “flagrar” alguma
desavisada. Quando uma mulher informa que fez três cesarianas e seu quarto
filho também nasceria pela cirurgia, a repórter dispara “Por quê?”. A mulher
informa que não teve passagem (dilatação). Mesmo assim, como que desconfiando,
a repórter repete “Não foi por escolha, não?”. A coitada repete que não teve
passagem.
Outra entrevistada explicou o motivo de sua cesariana: o
bebê não encaixou, não houve dilatação e a bolsa estourou. Deu para entender,
né? Caso de urgência, como foi o meu. Mesmo assim, a moça teve que responder a
mais uma pergunta: “Vocês soube no dia ou já estava decidido?”. A mulher agora
tem bola de cristal, já decide com meses de antecedência que sua bolsa vai
estourar e não haverá dilatação.
Eu decidi pelo parto normal e Deus decidiu que eu passaria
por uma cesariana. Se milha filha ficou “drogada” pela anestesia que eu tomei,
ela disfarçou muito bem, saiu de mim berrando a plenos pulmões. Foi levada para
mim horas depois e estava tranquila e saudável. Hoje, ela tem seis anos e
nenhum traço de que ficou traumatizada pela forma como nasceu. Foram cortadas
sete camadas de pele, músculos e sei lá mais o que, e no dia seguinte eu estava
andando pelo quarto normalmente, sem qualquer dor.
Tenho uma prima que teve complicações durante seu parto
normal, mas o médico insistiu em fazer a “coisa certa”, e a tal coisa levou
mais que 15 horas. Quando finalmente o bebê saiu roxo, constatou-se falta de ar
no cérebro do bebê, por um breve período, devido à demora e problemas do parto.
Só para as pessoas entenderem que existem boas cesarianas e partos
normais péssimos também. Mas, acima de tudo, que uma mulher deve ser respeitada
no seu direito de escolha sobre si mesma.