segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Um conto para minha filha - preparando-a para ser a melhor amiga

Você é a minha melhor amiga.” Pronto, estava selado o relacionamento mais importante da vida de uma menina de doze anos. Você podia ter várias amigas, mas era obrigatório eleger a “melhor amiga”. E deveria fazê-lo em diversos grupos: havia a colega número um do colégio, a prima mais querida e a vizinha preferida. O ponto alto era a escolha da principal, uma espécie de miss universo entre as melhores amigas de cada categoria. O resultado causava decepção nas demais e uma alegria esfuziante na escolhida. Era uma honra ser a melhor amiga, mas era também uma enorme cobrança para que você jamais cometesse um erro; uma desatenção lhe custaria o cargo.

Minha primeira melhor amiga foi Cláudia Miranda Starling, cujo nome completo sei até hoje, apesar de termos ambas apenas seis anos de idade quando nos conhecemos. Era um amor não correspondido, a menina não fazia questão da minha amizade, mas eu a adorava, pois ela tinha dois atributos que me encantavam – cabelos lisos e longos e comportamento doce como um anjo. Em resumo, ela era o meu oposto, com meu cabelinho curto e cacheado e a minha personalidade de tiranossauro rex. A última vez que nos vimos, foi há 34 anos, mas acho que reconheceria seu rostinho de boneca mesmo com algumas rugas.

A vaga não demorou a ser preenchida por outra colega de escola, Paula Regina Pizzanni Queiroz. Lembro-me de seu lindo sorriso, consigo ver em minha mente o contorno da sua letra no caderno e o eterno corte de cabelo, que nunca mudou durante os sete anos em que convivemos. Quantas conversas ao telefone, quantos ataques de riso tivemos juntas. Nunca mais ri como aos doze anos, era um riso fácil e farto. Brigávamos muito, vivíamos tirando a coroa de melhor amiga uma da outra e, depois de muito choro, fazíamos as pazes como um casal de namorados. Hoje, olhando para trás, acho que nem com o namorado uma garota reparte conversas tão profundas, secretas e sonhadoras como o faz com a melhor amiga.

A grande surpresa da minha vida foi encontrar uma melhor amiga aos 26 anos de idade. Adeilda Viana antipatizou comigo à primeira vista, pois entrei na empresa substituindo a amiga dela. Eu também fugia dela, com receio de errar seu nome que eu nunca conseguia memorizar. Então, um dia, quando a turma estava de saída para o almoço, nosso chefe nos alcançou no elevador e, grosseiramente, esbravejou com Adeilda por um erro que ela cometera. Nem por um segundo aquela mulher perdeu a educação ou abaixou-se ao nível dele. Aguardou o final da explosão, deu uma explicação cortês e informou: “Resolvo assim que voltar. Estou indo para o almoço”, concluiu ela, virando-se. Na mesma hora pensei: “está aí uma pessoa que tem talento para me aguentar”. Foi assim que nossa amizade durou dez anos, com muitas viagens à praia, pileques em botequins, seções de cinema e de comilanças. Ela era sincera, paciente e tinha um coração enorme. Se faltassem qualidades, bastaria essa: ela me obrigou a estudar para um concurso e é a razão de eu ter um emprego hoje. E também me apresentou a um dos meus filmes prediletos, Sherek! Ao seu lado vivi momentos grandiosos, como quando tiramos carteira de motorista juntas, e momentos terríveis, como a falência da empresa da qual éramos sócias. Adeilda tinha mãos lindas, acho que eram um reflexo de sua generosidade. Segurei aquelas mãos por longos minutos em nossa despedida.

Hoje, não faço ideia do que aconteceu à Cláudia, nunca mais a vi. Alguns amigos são assim, estão presentes na sua vida apenas num determinado momento e desaparecem quando chega a hora de você aprender coisas novas com outras pessoas.

Paula decidiu um dia que eu não servia mais como amiga, apertou um botão e me deletou da sua vida. Sem explicações, sem adeus. Era para ser assim, pois às vezes, só uma grande dor nos faz crescer.

Adeilda partiu aos 36 anos de idade. E, por mais doloroso que seja perder para sempre uma das poucas almas que entendeu a sua, no final você acaba se conformando. Porque, às vezes, é preciso uma pessoa amiga lá em cima também, olhando por você, esperando para tomar sua mão na travessia, quando chegar a sua vez.

Nenhum comentário:

Postar um comentário