“Você
é a minha melhor amiga.” Pronto, estava selado o relacionamento
mais importante da vida de uma menina de doze anos. Você podia ter
várias amigas, mas era obrigatório eleger a “melhor amiga”. E
deveria fazê-lo em diversos grupos: havia a colega número um do
colégio, a prima mais querida e a vizinha preferida. O ponto alto
era a escolha da principal, uma espécie de miss universo entre as
melhores amigas de cada categoria. O resultado causava decepção nas
demais e uma alegria esfuziante na escolhida. Era uma honra ser a
melhor amiga, mas era também uma enorme cobrança para que você
jamais cometesse um erro; uma desatenção lhe custaria o cargo.
Minha
primeira melhor amiga foi Cláudia Miranda Starling, cujo nome
completo sei até hoje, apesar de termos ambas apenas seis anos de
idade quando nos conhecemos. Era um amor não correspondido, a menina
não fazia questão da minha amizade, mas eu a adorava, pois ela
tinha dois atributos que me encantavam – cabelos lisos e longos e
comportamento doce como um anjo. Em resumo, ela era o meu oposto, com
meu cabelinho curto e cacheado e a minha personalidade de
tiranossauro rex. A última vez que nos vimos, foi há 34 anos, mas
acho que reconheceria seu rostinho de boneca mesmo com algumas rugas.
A
vaga não demorou a ser preenchida por outra colega de escola, Paula
Regina Pizzanni Queiroz. Lembro-me de seu lindo sorriso, consigo ver
em minha mente o contorno da sua letra no caderno e o eterno corte de
cabelo, que nunca mudou durante os sete anos em que convivemos.
Quantas conversas ao telefone, quantos ataques de riso tivemos
juntas. Nunca mais ri como aos doze anos, era um riso fácil e farto.
Brigávamos muito, vivíamos tirando a coroa de melhor amiga uma da
outra e, depois de muito choro, fazíamos as pazes como um casal de
namorados. Hoje, olhando para trás, acho que nem com o namorado uma
garota reparte conversas tão profundas, secretas e sonhadoras como o
faz com a melhor amiga.
A
grande surpresa da minha vida foi encontrar uma melhor amiga aos 26
anos de idade. Adeilda Viana antipatizou comigo à primeira vista,
pois entrei na empresa substituindo a amiga dela. Eu também fugia
dela, com receio de errar seu nome que eu nunca conseguia memorizar.
Então, um dia, quando a turma estava de saída para o almoço, nosso
chefe nos alcançou no elevador e, grosseiramente, esbravejou com
Adeilda por um erro que ela cometera. Nem por um segundo aquela
mulher perdeu a educação ou abaixou-se ao nível dele. Aguardou o
final da explosão, deu uma explicação cortês e informou: “Resolvo
assim que voltar. Estou indo para o almoço”, concluiu ela,
virando-se. Na mesma hora pensei: “está aí uma pessoa que tem
talento para me aguentar”. Foi assim que nossa amizade durou dez
anos, com muitas viagens à praia, pileques em botequins, seções de
cinema e de comilanças. Ela era sincera, paciente e tinha um coração
enorme. Se faltassem qualidades, bastaria essa: ela me obrigou a
estudar para um concurso e é a razão de eu ter um emprego hoje. E
também me apresentou a um dos meus filmes prediletos, Sherek! Ao seu
lado vivi momentos grandiosos, como quando tiramos carteira de
motorista juntas, e momentos terríveis, como a falência da empresa
da qual éramos sócias. Adeilda tinha mãos lindas, acho que eram um
reflexo de sua generosidade. Segurei aquelas mãos por longos minutos
em nossa despedida.
Hoje,
não faço ideia do que aconteceu à Cláudia, nunca mais a vi.
Alguns amigos são assim, estão presentes na sua vida apenas num
determinado momento e desaparecem quando chega a hora de você
aprender coisas novas com outras pessoas.
Paula
decidiu um dia que eu não servia mais como amiga, apertou um botão
e me deletou da sua vida. Sem explicações, sem adeus. Era para ser
assim, pois às vezes, só uma grande dor nos faz crescer.
Adeilda
partiu aos 36 anos de idade. E, por mais doloroso que seja perder
para sempre uma das poucas almas que entendeu a sua, no final você
acaba se conformando. Porque, às vezes, é preciso uma pessoa amiga
lá em cima também, olhando por você, esperando para tomar sua mão
na travessia, quando chegar a sua vez.
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