segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O perigo por trás da tela

Crianças cada vez mais novas acessam o conteúdo da internet

Minha filha descobriu o Youtube. Só preciso deixar a tela do buscador aberta e ela mesma digita a letra Y. Imediatamente aparecem as opções e ela clica na primeira, sabendo que a opção com cor diferente é a mais acessada (olha a esperteza de baixinha). Também por ser muito acessado, o site abre ofertando à minha menina opções de vídeos que a interessariam. O Grande Irmão já sabe o que se passa na cabeça da minha filha, lembra o que ela viu da última vez em que o visitou e dá novas opções, outros filminhos similares. É um pouquinho assustador, a noção de que minha filha, com apenas cinco anos, não sabe ler, mas reconhece nomes de sites pelo seu desenho e já consta na pesquisa virtual como uma consumidora de hábitos.

Sua preferência são trechos musicais de desenhos animados, jogos de monstros e video clips da Lady Gaga. Nem sabe português direito mas canta foneticamente “Bad Romance” e “Poker Face”. Ainda não foi alfabetizada, mas já está treinada em pular os comerciais que infestam a internet. Ela clica na hora certa, não perde nem um segundo.

- Filha, como você aprendeu a fazer isso?

- A titia me ensinou. A palavra "pular" começa com a letra P, mãe? Aí, aparece esse quadrado aqui e, quando vejo a letra P, eu clico em cima.

Pobres anunciantes...

vai ela clicando em diversos filminhos e eu na cozinha lavando a louça, ouvindo. De repente, percebi que a música ficou meio estranha, não parecia mais uma coisa infantil. Era um rock pesado e reconheci alguns palavrões cantados em inglês. Larguei tudo e corri para a sala. Na tela, os bichinhos do desenho estavam transfigurados com deformações, vestidos de couro preto e com chicotes em frente ao olhar estupefato de minha menininha. Em desespero, eu clicava em tudo quanto é botão e demorei a conseguir tirar a imagem do ar.

- Mãe, por que eles estão assim? Eles ficaram maus?

- Filha, nem tudo o que a gente encontra na internet é bom para você assistir, entendeu? Algumas pessoas fazem coisas erradas com os desenhos de crianças, e isso não é bom.

- Por que eles fazem isso?

- Porque...

Percebi que eu não tinha a resposta. Não sabia o que levava as pessoas a produzirem um conteúdo inadequado disfarçado de desenho animado. Eles sabem que o público que procurará esse material é inocente, sem capacidade ainda de discernir o que pode ser visto daquilo que deve ser evitado. Qual deve ser o interesse de se postar uma mensagem apenas para provocar o mal estar em uma criança? O tipo de mente destorcida que faz isso seria capaz de outras maldades no mundo real? A crueldade assusta mais quando apresenta-se assim, tão sem propósitos.

A admiração que senti ao ver minha filha mexendo no computador como se fosse gente grande perdeu um pouco o brilho, com o temor de ver seu mundinho ultrajado com mensagens inadequadas. Mas, isso se resolve facilmente instalando um sistema na máquina. O importante mesmo é lembrar que a censura nem sempre é uma coisa ruim. Pais devem censurar sim, o conteúdo da internet para seus filhos dependendo da idade. E, na adolescência, a censura deve dar lugar ao acompanhamento definido em um acordo entre ambas as partes, mas não é possível se descuidar totalmente. Afinal, não sabemos quem está do outro lado da tela do computador, produzindo e enviando mensagens para alguém que ele só vê como sendo um mero público consumidor, ou seja, o seu filho.









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