Crianças
cada vez mais novas acessam o conteúdo da internet
Minha
filha
descobriu
o
Youtube.
Só preciso deixar a tela do buscador aberta e ela mesma digita a
letra Y. Imediatamente aparecem as opções e ela clica na primeira,
sabendo que a opção com cor diferente é a mais acessada (olha a
esperteza de baixinha). Também por ser muito acessado, o site abre
ofertando à minha menina opções de vídeos que a interessariam. O
Grande Irmão já sabe o que se passa na cabeça da minha filha,
lembra o que ela viu da última vez em que o visitou e dá novas
opções, outros filminhos similares. É um pouquinho assustador, a
noção de que minha filha, com apenas cinco anos, não sabe ler, mas
reconhece nomes de sites pelo seu desenho e já consta na pesquisa
virtual como uma consumidora de hábitos.
Sua
preferência são trechos musicais de desenhos animados, jogos de
monstros e video clips da Lady Gaga. Nem sabe português direito mas
canta foneticamente “Bad Romance” e “Poker Face”. Ainda não
foi alfabetizada, mas já está treinada em pular
os comerciais
que
infestam
a
internet.
Ela
clica
na
hora
certa,
não
perde
nem
um
segundo.
-
Filha,
como
você
aprendeu
a
fazer
isso?
-
A
titia
me
ensinou.
A
palavra
"pular"
começa
com a letra
P,
né
mãe?
Aí,
aparece
esse quadrado aqui e, quando vejo a letra P,
eu
clico
em
cima.
Pobres
anunciantes...
Lá
vai
ela
clicando
em
diversos
filminhos
e
eu
na
cozinha
lavando
a
louça,
só
ouvindo.
De
repente,
percebi
que
a
música
ficou
meio
estranha,
não
parecia
mais
uma
coisa
infantil.
Era
um
rock
pesado
e
reconheci
alguns
palavrões
cantados
em
inglês.
Larguei
tudo
e
corri
para
a
sala.
Na
tela,
os bichinhos do
desenho
estavam
transfigurados
com
deformações,
vestidos
de
couro
preto
e
com
chicotes
em
frente
ao
olhar
estupefato
de
minha
menininha.
Em
desespero,
eu clicava
em
tudo
quanto
é
botão
e
demorei a conseguir tirar a imagem do ar.
-
Mãe,
por
que
eles
estão
assim?
Eles
ficaram
maus?
-
Filha,
nem tudo o que a gente encontra na internet é bom para você
assistir, entendeu? Algumas pessoas fazem coisas erradas com os
desenhos de crianças, e isso não é bom.
-
Por que eles fazem isso?
-
Porque...
Percebi
que eu não tinha a resposta. Não sabia o que levava as pessoas a
produzirem um conteúdo inadequado disfarçado de desenho animado.
Eles sabem que o público que procurará esse material é inocente,
sem capacidade ainda de discernir o que pode ser visto daquilo que
deve ser evitado. Qual deve ser o interesse de se postar uma mensagem
apenas para provocar o mal estar em uma criança? O tipo de mente
destorcida que faz isso seria capaz de outras maldades no mundo
real? A crueldade assusta mais quando apresenta-se assim, tão sem
propósitos.
A
admiração que senti ao ver minha filha mexendo no computador
como se fosse gente grande perdeu um pouco o brilho, com o temor de
ver seu mundinho ultrajado com mensagens inadequadas. Mas, isso se
resolve facilmente instalando um sistema na máquina. O importante
mesmo é lembrar que a censura nem sempre é uma coisa ruim. Pais
devem censurar sim, o conteúdo da internet para seus filhos
dependendo da idade. E, na adolescência, a censura deve dar lugar ao
acompanhamento definido em um acordo entre ambas as partes, mas não
é possível se descuidar totalmente. Afinal, não sabemos quem está
do outro lado da tela do computador, produzindo e enviando mensagens
para alguém que ele só vê como sendo um mero público consumidor,
ou seja, o seu filho.
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