Criança precisa brincar. Além da
diversão, a brincadeira proporciona que a criança experimente situações,
organize suas emoções e desenvolva sua personalidade, como você e eu fizemos um
dia. A diferença é que, hoje, brincar é uma coisa bem mais complexa.
A geração entre 30 e 40 anos deve
se lembrar muito bem que, para uma boa brincadeira, eram necessárias apenas
duas coisas: um bom quintal e um bando de moleques da rua. Pronto, a farra
estava garantida. O quintal tinha todos os brinquedos que tornavam as
brincadeiras inesquecíveis, como uma goiabeira para se subir, um pneu velho
para girar e terra com minhocas, ingredientes básicos para se preparar uma sopa
de bruxa.
Com o tempo, brincar se tornou uma
atividade sofisticada. Uma garota que se preze não pode ter apenas uma Barbie,
tem que ter uma coleção. Afinal, a Barbie pode ser veterinária, rock star,
sereia, estrela de cinema e é preciso ser todas elas. Para os garotos, de que
vale o Max Steel sem adquirir junto seus apetrechos mortíferos e os monstros
vilões para ele combater? É verdade que o brinquedo hoje é mais acessível e o
crédito está mais fácil. Mas, em contrapartida, as crianças aprenderam a exigir
marcas e o conceito da quantidade de brinquedos necessária para fazer os filhos
felizes mais que triplicou. Serão mesmo necessários tantos presentes para as
crianças crescerem completas? Ou estamos tentando compensar algo?
Se não me falha a memória, aos
seis anos eu tinha duas bonecas. Minha filha de cinco anos possui mais de dez e
isso ainda é pouco, se comparada às coleguinhas da escola. Segundo a Abrinq
(Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos), em 2012 o Brasil vendeu
R$ 676,4 milhões em brinquedos no Natal. Nós, pais, somos os responsáveis por
essa cifra, e vamos contribuir de novo neste ano, afinal, Natal é Natal. O
presente mais caro, o mais esperado é sempre prometido para essa data e vira
objeto de mil chantagens. “Se você não se comportar, não vai ganhar a bicicleta
no Natal, viu?” Que atire a primeira pedra o pai que nunca pronunciou essa
frase. Afinal, também somos apenas crianças maiores tentando aprender a arte de
criar outro ser humano, de preenchê-lo com valores reais e dignos que o tornem
um adulto melhor que nós mesmos. Mas, estarão os nossos valores realmente
equilibrados com essa visão ideal que temos da pessoa de bem e digna na qual
sonhamos transformar nossas crianças? Quando você abarrota as prateleiras com
bugingangas, não volta para casa sem uma lembrancinha e nunca diz não ao seu
filho durante uma birra no meio de uma loja de brinquedos, qual é o valor que
você está ensinando a ele?
O excesso de brinquedos pode
tentar compensar horas de qualidade para as quais não temos tempo e, às vezes,
nem disposição para fazerem acontecer entre nós e nossos filhos. E quando
presenteamos o filho que chora, pedindo/exigindo um brinquedo, não apenas lhe
damos aval para fazer birra, mas também fazemos com que ele passe a duvidar da
nossa bondade. Afinal, que tipo de pai cruel é esse que premia o filho, mas
apenas depois de assisti-lo chorar, sofrer e se debater em desespero?
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