terça-feira, 29 de outubro de 2013

Você está pronto compras de Natal? - Dê ao seu filho o que ele está pedindo. Mas, surpresa, pode não ser um brinquedo.

Criança precisa brincar. Além da diversão, a brincadeira proporciona que a criança experimente situações, organize suas emoções e desenvolva sua personalidade, como você e eu fizemos um dia. A diferença é que, hoje, brincar é uma coisa bem mais complexa.

A geração entre 30 e 40 anos deve se lembrar muito bem que, para uma boa brincadeira, eram necessárias apenas duas coisas: um bom quintal e um bando de moleques da rua. Pronto, a farra estava garantida. O quintal tinha todos os brinquedos que tornavam as brincadeiras inesquecíveis, como uma goiabeira para se subir, um pneu velho para girar e terra com minhocas, ingredientes básicos para se preparar uma sopa de bruxa.

Com o tempo, brincar se tornou uma atividade sofisticada. Uma garota que se preze não pode ter apenas uma Barbie, tem que ter uma coleção. Afinal, a Barbie pode ser veterinária, rock star, sereia, estrela de cinema e é preciso ser todas elas. Para os garotos, de que vale o Max Steel sem adquirir junto seus apetrechos mortíferos e os monstros vilões para ele combater? É verdade que o brinquedo hoje é mais acessível e o crédito está mais fácil. Mas, em contrapartida, as crianças aprenderam a exigir marcas e o conceito da quantidade de brinquedos necessária para fazer os filhos felizes mais que triplicou. Serão mesmo necessários tantos presentes para as crianças crescerem completas? Ou estamos tentando compensar algo?

Se não me falha a memória, aos seis anos eu tinha duas bonecas. Minha filha de cinco anos possui mais de dez e isso ainda é pouco, se comparada às coleguinhas da escola. Segundo a Abrinq (Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos), em 2012 o Brasil vendeu R$ 676,4 milhões em brinquedos no Natal. Nós, pais, somos os responsáveis por essa cifra, e vamos contribuir de novo neste ano, afinal, Natal é Natal. O presente mais caro, o mais esperado é sempre prometido para essa data e vira objeto de mil chantagens. “Se você não se comportar, não vai ganhar a bicicleta no Natal, viu?” Que atire a primeira pedra o pai que nunca pronunciou essa frase. Afinal, também somos apenas crianças maiores tentando aprender a arte de criar outro ser humano, de preenchê-lo com valores reais e dignos que o tornem um adulto melhor que nós mesmos. Mas, estarão os nossos valores realmente equilibrados com essa visão ideal que temos da pessoa de bem e digna na qual sonhamos transformar nossas crianças? Quando você abarrota as prateleiras com bugingangas, não volta para casa sem uma lembrancinha e nunca diz não ao seu filho durante uma birra no meio de uma loja de brinquedos, qual é o valor que você está ensinando a ele?

O excesso de brinquedos pode tentar compensar horas de qualidade para as quais não temos tempo e, às vezes, nem disposição para fazerem acontecer entre nós e nossos filhos. E quando presenteamos o filho que chora, pedindo/exigindo um brinquedo, não apenas lhe damos aval para fazer birra, mas também fazemos com que ele passe a duvidar da nossa bondade. Afinal, que tipo de pai cruel é esse que premia o filho, mas apenas depois de assisti-lo chorar, sofrer e se debater em desespero?

Para fugir dessa armadilha, é preciso pensar antes da compra: estou satisfazendo uma necessidade ou um objeto? Meu filho precisa brincar ou precisa do brinquedo? A criança não deve obter coisas porque pede, mas porque precisa delas. Quando a vontade de encher seu pimpolho de mimos bater, lembre-se que dar tudo a ele é provavelmente o caminho mais curto para torná-lo um fraco, pois suportar contrariedades e aprender a valorizar as coisas são experiências que fortalecem as pessoas. Esse é o presente que seu filho merece ganhar. Claro, com algumas exceções. O Natal continua valendo um bicicleta.


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