- Mãe, já que você não me dá um irmão, me dê ao menos um
cachorro.
Como responder não a um apelo desses? Minha filha única
acertou em cheio a flecha da culpa em meu coração de mãe. Não é que eu não
goste de cachorros, pelo contrário. Tenho uma galeria de lembranças caninas da
minha infância e adolescência que sempre me despertam um apertinho de saudade. Mas,
agora moro em um apartamento e ter um cachorro significa lidar com o odor de
urina e fezes em um espaço muito pequeno. Sem falar nos pelos grudados no sofá,
dos latidos de madrugada e mais um monte de dificuldades. Resolvi enfrentar
todas elas, começando pelo meu marido. Adotei uma nova tática, ao invés de
dialogar (coisa que já estava fazendo há um mês) eu apenas avisando que já
marcara para pegar um cachorro que fora colocado para adoção.
- Você sabe que eu não quero, vai sobrar para mim – Ele
começou irritado.
- Eu vou cuidar. – garanti.
- Mas a Laura pediu um cão da raça Pug, que custa mais de
mil reais.
- O que nos dá uma ótima oportunidade de ensinar à nossa
filha que ela não deve gostar de um cachorro porque ele está na moda ou é
bonito. Adotar é que é tudo de bom.
Mesmo determinada, confesso que fiquei insegura na hora da
adoção. E se o cachorro fosse de comportamento agitado, comesse os brinquedos
da Laura, destruísse minha vassoura, fizesse cocô no lugar errado e não
soubesse se comportar nem obedecer? Pois o cachorro era tudo isso e mais um
pouco, mas eu só descobriria a verdade duas semanas depois.
Laura se apaixonou perdidamente por Mutley, o que já era
esperado. Mas, engraçado mesmo foi assistir meu marido se derretendo aos poucos
pelo vira latinha. Quando chegamos a casa, ele decretou.
- Esse cão já foi abandonado duas vezes. Daqui, ele não sai
mais.
Nas primeiras semanas, Mutley parecia assustado e confuso.
Se eu me levantava do sofá e ia até a cozinha, ele levantava de um pulo e me
seguia, olhando-me com os olhinhos arregalados. Parecia perguntar: “Aonde você
vai? Vai voltar? Ou vai me abandonar?” Ele estremecia ao chegar perto do jornal
para fazer xixi, aparentando ter sofrido algum mal trato por isso, pois ele
chegou a segurar a urina por quase dois dias. Uivava e chorava desesperadamente
ao ser deixado sozinho, mas depois parava.
Finalmente foi se acalmando e aí...
Pronto! Mutley agora está à vontade. Rouba os brinquedos de Laura, já decapitou
duas bonecas, não me obedece quando chamo e seu próximo plano é rasgar a guia
da coleira novinha (já roeu metade).
Fico furiosa e aí ele chega perto de mim com aquelas orelhas
negras caídas, abanando o rabo todo satisfeito. Está ganhando peso e brinca
horas com minha filha. Se não dou atenção, ele morde meu pé e antes que eu
tenha chance de ralhar com ele, corre até a área e volta com uma corda com a
qual brincamos de cabo de guerra. Estou com dor nos joelhos de tanto brincar com
minha filha de pegar o pequeno cachorrinho, ele roda todo o apartamento em um
segundo. Enfim, agora minha vida está uma bagunça. Graças a Deus.

Meu filho também me pediu um cachorro, aliás há tempos vem pedindo. Aqui em casa foi diferente, perguntei se ele queria um irmão, daí ele pensou e respondeu: mãe, pode ser um cachorro, pois até sua barriga crescer, o bebê nascer e poder brincar comigo vai demorar muito! Conclusão ganhou o cachorro!
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